SEMPER INFIDELES

  

 

 

"Nem cismáticos, nem excomungados"

 

Pádua, sexta-feira, 18 de novembro de 1994. Em presença de Mons. Eugenio Ravigani, bispo de Vittorio Veneto, apresentação do livro Vinte séculos de Cristianismo, de Mons. Ulderico Gamba e do doutor Giuseppe Gottardo. Na página 884 da obra se lê: "O caráter firme e resoluto do papa [João Paulo II] se manifestou na sua defesa infatigável da doutrina católica no domínio dogmático e moral, e em particular no caso [quais são os outros?] do cisma do bispo Lefebvre, que se declarou oposto às novidades do Concílio sobre a base de um conservadorismo rígido e que foi excomungado assim como seus discípulos".

 

Observamos:

 

1) Se, segundo os autores, o caso do "bispo Lefebvre" é um "cisma", isto não concerne ao "domínio dogmático e moral" mas, eventualmente, ao domínio disciplinar e nem mesmo esse no caso onde existissem, como é o nosso, motivos graves e apropriados para recusar a obediência: o cisma, para ser tal, deve ser uma "separação ilegítima" (v. Dicionário de Teologia católica, verbete cisma);

 

2) A "doutrina católica no domínio dogmático e moral" pela qual a Igreja é a Igreja, defende-se contra as "novidades" e não contra aqueles que barram o caminho para as "novidades";

 

3) Para afirmar que a resistência de Mons. Lefebvre é um caso infeliz de "conservadorismo rígido", seria necessário demonstrar que as "novidades" do Concílio não estão em contradição flagrante com o que a Igreja sempre creu e ensinou até à véspera de Vaticano II, o que no entanto não é demonstrado e é indemonstrável; ao contrário, os próprios artífices do Vaticano II admitem a "revolução" e João Paulo II não os desaprova mas os faz... cardeais. E então? A quem cabe o mérito da "defesa infatigável da doutrina católica"?

 

4) Os "discípulos" de Mons Lefebvre.

 

Perguntamos: Mons. Lefebvre inventou uma doutrina nova, pessoal, como Lutero ou como os "inovadores" de ontem ou de hoje? Não. Ao contrário, ele se opôs às "novidades" que nenhum concílio, nem mesmo dogmático (imaginem se "pastoral"!) tem o poder de impôr contra a doutrina constante da Igreja. Mons. Lefebvre desprezou a autoridade legítima do Papa e dos bispos unidos a este? Não. Ele apenas, com franqueza (hoje se diria - e seria aqui realmente o caso de dizer - "profeticamente") lembrou que a hierarquia não tem o direito de por a serviço do erro essa autoridade que ela recebeu de Deus para servir à Verdade. Assim, não há "discípulos de Mons. Lefebvre"; há somente filhos da Igreja que como Mons. Lefebvre pensam: "Eu nasci católico e não quero morrer protestante".

 

Acumular numa curta frase tantos erros, malícias e contradições é indigno de um historiador do Cristianismo, mas se situa muito bem numa "releitura" ecumênica da história do Cristianismo que é esta obra Vinte séculos de Cristianismo, na qual Lutero e seus discípulos, heréticos e cismáticos, são apresentados como "esta parte do mundo que, destacando-se da Igreja de Roma, confirmou no entanto sua adesão ao Cristianismo". Como se o Cristianismo pudesse subsistir separado da "Igreja de Roma" e maltratado de heresias!

  

 

 

 

(Revista Sim Sim Não Não n°36, dezembro de 1995)

 

 

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