Carta a Fernanda Montenegro

Fausto Fernandes Belmont

12.10.05

 

Prezada Fernanda:

 Conheço-a porque é figura pública relevante e talentosa. A Senhora não me conhece, porque sou um anônimo gaúcho, morador nos confins do Rio Grande do Sul, onde crio ovelhas. Creio que saiba que se tratam dos mais indefesos e perseguidos animais domesticados pelo homem. Sobreviveram na seleção das espécies, graças ao zelo dos pastores. São inúmeros os seus predadores, onde o pior é o homem. Não dispõem de meios de defesa, fortes garras, dentes estranguladores, veneno letal, ou a de velocidade de fuga. Estaria extinta, não fosse a tutela humana.

Numa fazenda, mal servida de estradas e de meios de comunicação, com longínquos ou escassos vizinhos, não há qualquer proteção do Estado. A defesa deve ser provida por seu proprietário e empregados. Isto não se faz com rosas ou cândidas palavras.

Descendo de uma família que há gerações tem nas armas a sua última segurança. Primeiro elas foram manuseadas nos conflitos que marcaram nossas fronteira e formação histórica. Depois repousaram como recurso a ser usado, quando todos os demais falharem. Ninguém as usou, até nossos dias para a agressão ao próximo. No meu meio o mau uso só aconteceu como exceção.

As armas, Dona Fernanda, passaram a ser acionadas de forma cruel e bárbara, em tempos de paz, após o advento das drogas. Estas sim são o combustível principal que dispara gatilhos.

Pelo noticiário, com freqüência , tomo conhecimento de que colegas seus, artistas, são flagrados como consumidores de drogas. De uma feita, estando no Rio de Janeiro, fui convidado a uma festa. Presentes muitos artistas e pessoas do gran monde. Qual não foi a minha surpresa, quando os garçons passaram a servir, em bandejas de prata, carreirinhas de um pó branco, que depois me informaram se tratar de cocaína. Esses consumidores, autores e diretores de televisão, gente graúda, de muita plata, são a razão de ser do tráfico. Não existe comércio sem demanda. E a disputa por essa demanda é que alimenta o contrabando, de armas e drogas, a luta pelos pontos, a corrupção policial e até judicial, dizem.

A poderosa Rede Globo, sua empregadora e de outros artistas, que emprestam seu prestígio à campanha contra a venda legal de armas e munições, não alterou em nada sua programação, onde a violência é difundida e ensinada em inúmeros programas, numa dissolução de costumes que arrasa o respeito ao outro, às instituições, leis e autoridades, e forma esse caldo onde viceja a violência. Essa organização sempre andou do lado errado, lembra a posição na campanha das Diretas Já? Pois ela silencia sobre o uso de drogas, por quê? E assim penso que os malandros do governo e da sua empregadora abusaram da sua boa fé, fazendo-a crer que, se usasse seu nome e talento, estaria contribuindo para um mundo de paz.

Se for vitoriosa a sua campanha, como vou defender minhas ovelhas? Vou comprar munição no mercado negro? Ou a Senhora virá, com a força da sua arte dramática, convencer os agressores a mudarem de conduta?

Ao fim, pergunto, como ficará a sua consciência, quando tomar conhecimento de alguma pessoa foi assassinada, porque lhe privaram dos meios para prover sua defesa. Meios que maneja com perícia desde há muito, sem que tenham vitimado qualquer inocente?

Desculpe, mas quando vejo artistas tentando induzir pessoas de forma tão leviana, penso que "não deve ir o sapateiro além da sandália".

Com todo o respeito, assino 

Fausto Fernandes Belmonte

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