PROTESTO

sobre um artigo do Mídia sem Máscara (A Cruz e a Toga)

Dom Lourenço Fleichman OSB

O nome do sujeito é CRISTALDO. Janer Cristaldo. Carrega no nome a Cruz de Cristo. Vá que talvez o pai o tenha assim chamado por outros motivos. Cristaldo rima com cristal, é verdade. Mas querendo ou não querendo, na nossa língua portuguesa, Cristaldo vai sempre lembrar Cristo.

Apesar do nome, o sujeito é ateu. Era católico, mas apostasiou. Acontece nas melhores famílias. Podia ser um ateu indiferente a Deus, indiferente ao Evangelho ou ao modo como Aquele que lhe emprestou o nome foi morto. Mas não. Seu ateísmo é daquele tipo "religioso". Só pensa em Deus, só fala de Deus, mas sempre com o sinal negativo. Onde esse mesmo Deus fala de Amor, Cristaldo distila o ódio. Onde Deus fala da Verdade, Cristaldo prefere a duplicidade religiosa. Hoje, Cristaldo cospe na Cruz de Nosso Senhor e enaltece outras religiões para contrapor ao catolicismo. Mas não deixa de dormir por ontem ter cuspido nessas mesmas religiões que hoje utiliza contra Cristo. Abram o blog do escritor para verificar:

"Devido à imigração africana, o islamismo vai lentamente contaminando o continente, com suas mesquitas e práticas, algumas delas inconcebíveis em país que nutra algum respeito pelo ser humano. Na Itália, berço do catolicismo, a segunda religião em número de praticantes já é a muçulmana, com um milhão de fiéis. Fiéis que não se contentam em virar o traseiro pra lua e invocar Alá, mas querem impor modificações na legislação vigente."

No caso do artigo publicado no site Mídia sem Máscara nesta segunda-feira, 10 de outubro, o autor queria apenas explicar porque concorda com o juiz gaúcho que propôs a retirada dos crucifixos das salas dos tribunais. Se Cristaldo fosse um ateu comum, poderia apoiar a opinião do juiz gaúcho tomando como argumento, como faz adiante, o caráter pluralista da constituição nacional, ou evocando sua crença na indiferença religiosa. Mas Cristaldo é um daqueles ateus que "acreditam" furiosamente no anti-Deus. Por isso levanta-se como numa guerra de religião, com a violência típica dos fanáticos religiosos, para destruir até mesmo a idéia de uma Cruz. Joga nela toda a lama que encontra ao redor de si, mas não consegue seu intento. Ousa levantar falso contra a Igreja invertendo o papel da Cruz. Que seja um símbolo infame no paganismo romano é uma coisa. Mas dizer que o Cristianismo usou a Cruz para matar é uma deslavada mentira e um sacrilégio. Vem este filho da Cruz dizer que "para os romanos era um utensílio para a execução de sentenças". Pronto! Nero e os demais imperadores que massacraram os cristãos, ficam aqui transformados em bonzinhos governantes defendendo seu povo desses ogres monstruosos que lêem um livro sagrado que fala do Reino dos Céus. Os historiadores da época eram mais bem informados do que o sr. Cristaldo. Contam eles que o cheiro dos corpos sendo queimados sobre cruzes ao longo das estradas que levavam a Roma era insuportável. E vem o furibundo Cristaldo dizer que foram os católicos que usaram a Cruz para matar!

"A linguagem da cruz é loucura para os que se perdem, mas, para os que foram salvos, para nós, é uma força divina... mas nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos" (1Cor.1,18 e 23). Touchê!

Talvez num divã de analista ele chegasse à conclusão, ajudado pelo psicólogo, que o problema está no nome. Por mais que tente afastar a idéia de Cristo, ela se apresenta a ele em cada assinatura, cada vez que puxa a carteira de identidade. Daria trabalho ao analista fazer a regressão que deu origem à patética descrição do velório de sua falecida esposa. Todos os elementos de um recalque estão ali presentes: o símbolo, a impotência, a repulsa pela realidade simbolizada:

"Eu levava o corpo inerme [inerte, queria ele dizer?] de minha amada à capela do crematório e lá estava ele, desnudo, obsceno e sujo de sangue, braços estendidos, dominando aquele recinto fúnebre, com um ar de quem há séculos se sentia muito à vontade naquele madeiro, sempre pairando sobre cadáveres.

Minha reação foi imediata: “tirem isso daí e já!” Os funcionários, surpresos com meu gesto irado, não sabiam como reagir. Mas acabaram dando um sumiço na imagem do judeu."

Num primeiro momento senti o tapa no rosto, a falta de respeito, a língua obscena condenando como obscena a nudez sofrida e inocente do Salvador. Lembrei-me do salmo: "Não se regozijem de mim meus pérfidos inimigos, nem tramem com os olhos os que me odeiam sem motivo, pois nunca têm palavras de paz" (Sl. 34, 19-20)

Depois pensei em convidá-lo para uma conversa amena, mas não me parece ser o escritor capaz de tratar de um assunto desse sem se perturbar. Eu mostraria ao sr. Cristaldo que sua retórica perde todo o valor quando deixa seu coração mostrar o ódio e alguma coisa presa dentro de sua alma. Não imagino por que espécie de sofrimento passou este homem para jogar fora a fé do seu batismo com tanto ódio à Religião que nos traz a salvação. Foi beber nos livros de história, nos intelectuais espalhados pelo mundo que, antes dele, já deram sua contribuição às calúnias, cusparadas e lamas jogadas contra a Igreja Católica. E lá vem eles novamente.... Inquisição, Cruzadas, fogueiras. Porque não cita os documentos papais ordenando a tortura, a fogueira? Porque não cita algum livro, alguma frase tirada da boca dos santos católicos determinando que se mate para espalhar o cristianismo? Não cita porque não encontra, porque não existe. E por isso é mentira o que diz este senhor.

Sr. Cristaldo, o senhor diz que "O Brasil é um país multi-religioso". Só esquece de contar a história verdadeira do Brasil. Porque não lembra aos seus leitores que esses mesmos portugueses que trouxeram a civilização européia inauguraram a vida pública brasileira com a Santa Missa? E que o nome escolhido foi Terra da Santa Cruz? Essa mesma Cruz que o senhor rechaça, mas que carrega no nome, é o nome glorioso da nossa terra, da nossa Pátria. Porque não fala de um Padre Manoel da Nóbrega, de José de Anchieta, dos jesuítas que salvaram os índios das hordas de portugueses, franceses, espanhóis, aí pertinho do senhor, nas reduções guaraníticas? Porque não conta que esse Brasil só se tornou "multi-religioso" quando a maçonaria começou a ganhar a batalha, quando Pombal destruiu a civilização dos índios católicos, abandonados e massacrados pelo governo anti-católico português? Multi-religioso ele se tornou quando a maçonaria se instalou no governo do Visconde de Rio Branco, conseguindo mais tarde derrubar a monarquia e realizar a separação da Igreja e do Estado. Dos quinhentos anos de existência do Brasil como nação civilizada, apenas cem anos foram vividos sem a alma católica, num governo ateu e sem Deus. E quais os resultados desses cem anos, senhor? Esta é a tal democracia laica que os senhores pregam? O drama que vive o Brasil hoje foi causado por este século "multi-religioso".

E o que dizer da Europa? O que significa "um flagrante acinte à Europa" ? Seria este continente o berço da civilização ocidental se não tivesse sido "conquistada" à fé católica? Quem colocou uma espada na garganta de Constantino ou de Clóvis para que se convertessem? Santa Helena e Santa Clotilde? Ou será que os massacres, pilhagens, estupros, mortes constantemente realizadas pelos bárbaros eram também "utensílios para execução de sentenças"? Não foi à toa que São Bento foi declarado Patrono da Europa. Acinte é a Revolução ter pretendido derrubar todo o edifício civilizacional construído ao longo de 1700 anos. Acinte é a Maçonaria dominar todo o pensamento e toda ação dentro dessa Europa cristã e no resto do mundo.  É muito mais lógico pensar que a cultura que levantou monumentos imperecíveis como as igrejas, catedrais, afrescos, estatuária, que devolveu ao pobre a sua dignidade, que tirou da mulher o peso de ser um objeto, como era no direito romano, que inventou pela primeira vez na história certos direitos dos réus nos tribunais, e tantos outros feitos até hoje presentes em nossa sociedade, que esta cultura banhada no Sangue de Cristo tenha um valor intrínseco, uma realidade histórica, uma força perene.

Mas o sr.Cristaldo vai além. Pretende ridicularizar as coisas mais simples da moral natural só porque a Igreja, na sua moral sobrenatural também as obriga. Se a Igreja ensina aos homens a ordenar suas paixões e dar a finalidade própria ao prazer sexual, não significa que condene o prazer. A Igreja respeita a natureza da vida humana enquanto os intelectuais modernos pretendem que as paixões dos homens é que comandam a sociedade. Quer soltar os desejos sexuais? Então pregue também as paixões do poder. Apóie Hitler e Stálin. É lícito inverter o sexo? Então será lícito também inverter o papel de um político e deixá-lo roubar. Se é lícito ao homem romper com a natureza da sociedade familiar, porque lhe proibir de romper com a natureza do Estado? Seja coerente, vá até ao fundo. O aborto, o divórcio, o casamento de homossexuais não é proibido pela Igreja, como pensa Cristaldo. É proibido pela natureza do homem e da sociedade humana. E quando a Igreja conclama a todos os homens a praticar a Lei Natural, não está, de modo algum, sendo autoritária ou presunçosa, como pretende o articulista, mas tentando mover os homens a usar mais a razão do que a paixão, a ordenar seus sentimentos e sensações pelo uso da inteligência. Ai dela se não cumprir este dever. E foi graças a este trabalho de ordem espiritual, na conversão dos costumes, que o mundo conseguiu construir uma Civilização que no dizer do próprio Cristaldo "nutre algum respeito pelo ser humano". Outros preferem que os homens sejam piores do que bestas! Mas o intelectual demonstra nesse campo, como nos seus conhecimentos de História e ainda nas relações da Igreja e do Estado uma ignorância que devia levá-lo a calar-se.

"Volto à cruz" - está lá escrito no artigo do senhor Cristaldo. Penso que ele sempre voltará à Cruz, como voltou seu Dom Alonso Quijano, no momento da morte: "Traga-me un confessor que me confiesse... en tales trances como este, no se ha de burlar el hombre con el alma". (Dom Quixote). Rezo a Deus para que no dia da sua morte ele já não deseje mais, como escreveu, um triste velório sem Deus, sem Cristo, sem a Santa Esperança. 

X

Para quem quiser invocar os fracassos da Igreja, não é preciso gastar muitos conhecimentos históricos nem muitas citações eruditas; basta-lhe remontar ao fato fundamental do cristianismo. Os judeus e os soldados romanos já tinham começado com muito menos pedantismo o processo da Igreja e já lhe viam a vergonha e a decadência no momento exato em que Cristo vencia na Cruz. E nós nos gloriamos da cruz do Senhor. (Gustavo Corção - A Descoberta do Outro).

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