O VALOR DA VIDA

 

 Gustavo Corção

 

 

O jornal de anteontem anunciava aos berros: ABOLIDA A PENA DE MORTE NOS ESTADOS UNIDOS, e logo após enumerava os grandes criminosos beneficiados pelo penúltimo espasmo de permissiveness da grande nação agonizante. Lá estava o assassino do Senador Robert Kennedy. E demais homicidas. Quinhentos.

 

É fácil imaginar o dilúvio de pronunciamentos filantrópicos e humanitários que produzirão no mundo inteiro os amolecedores das consciências; como também é fácil imaginar o sagrado horror com que um deles leria, se as lesse, nossas mal traçadas linhas.

 

Na verdade não me parece muito difícil provar que os verdadeiros defensores do transcendental valor da vida humana são mais aqueles que reconhecem o direito que têm as sociedades de rejeitar com a máxima energia os homicidas de superlativa e intolerável crueldade do que esses outros que, em nome de uma gelatinosa complacência com os perversos, desarma e desprotege os inocentes.

 

Além disso cumpre notar as dimensões maiores do problema, tornadas hoje imperceptíveis por causa da universal depressão. A consciência católica, dirigida pelo Magistério, sempre aceitou a idéia de pena capital, e até sempre viu nela um recurso extremo graças ao qual os homens mais perversos recuperaram a dignidade perdida e o direito ao respeito de todos. Mais extremada ainda, dirá eu até mais provocante, parecerá aos amolecedores do mundo a idéia de que graças à pena de morte muitas almas perdidas se salvaram. E ainda mais extraordinária, para os humanitários de nosso tempo, é a coragem simples com que os santos vêem na pena de morte algo que misteriosamente os aproxima dos pobres monstros humanos que, por essa via extraordinária, ganharam infinitamente mais do que lhes oferece a filantropia.

 

Santa Catarina de Sena, doutora da Igreja e padroeira da Itália, tendo notícia da condenação do jovem Tuldo, que na prisão se revoltava e desesperava, corre à sua cela, senta-se no chão ao lado do moço e põe-se a falar de um céu que se abre, e de um palácio de amor, de fogo e sangue, onde a alma purificada corre ao encontro de seu Senhor e seu Pai, que corre também ao seu encontro e o cobre de beijos. Durante horas a moça Catarina Benincase, 25ª filha do tintureiro, ajuda o jovem Tuldo a desprender-se deste mundo e a desejar ardentemente ver a glória de Deus. Quando Catarina quer levantar-se suplica, como os peregrinos de Emaús: “Fica mais um pouco comigo dolce mamma, porque escurece”. E ela: “Amanhã cedo, filho, espero-te no santo lugar da Justiça”.

 

No dia seguinte, de manhã, Catarina esperava o moço Tuldo no cadafalso. Quando ele a viu alegrou-se e correu a ajoelhar-se com a cabeça no cepo; Catarina, ajoelhada diante dele, estendeu sua veste de mantellata, e quando viu o braço do carrasco erguer no ar o machado, gritou para o céu: “Io voglio!” E recebeu no regaço a cabeça a jorrar sangue. E temos a certeza de que Jesus — “Gesù dolce, Gesú amore”, terá feito a vontade daquela que sempre seguira Sua santa vontade.

 

 

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Menos medieval, mas não menos católica, é a história da menina Therèse Martin que um dia, aos 13 ou 14 anos, vê em cima da mesa um jornal com a notícia da execução do feroz e desumano Pranzini que degolara duas mulheres e matara uma criança com requintes de maldade. Teresa só pensa, instantaneamente, numa coisa, quando lê a notícia: o valor infinito de uma vida, sim, mas da vida eterna. E atira-se impetuosamente ao encontro de Jesus para reclamar, para apostrofar, quase para interpela-LO. Como, mais tarde, muitas vezes disse Gema Galgani em favor dos pecadores, Teresa não quer admitir que tenha sido em vão para aquele Pranzini o Sangue derramado desde o Jardim das Oliveiras até a Cruz. Nenhum de nós faz idéia do jato de amor, do ímpeto de misericórdia, da heróica generosidade com que Teresa se oferece como fiadora de tão graves e hediondos crimes; nenhum de nós faz idéia da explosão de fogo e da transfusão de sangue místico operada nesses instantes entre Teresinha e Jesus. O que sabemos, porque foi registrado, é que no trajeto da carreta Pranzini praguejava e blasfemava com furor. Chegou assim ao cadafalso, e era arrastado para a guilhotina quando subitamente acalmou-se, e de repente voltou-se para o padre que atrás trazia um crucifixo. Chorando ajoelhado, o pobre monstro humano beijou três vezes as santas chagas de Jesus, e nesse ato instantâneo e infinito tornou-se irmão ou afilhado primeiro de uma das mais belas santas do céu. Mais tarde a doce carmelita Teresinha aludiu uma vez a este primeiro filho que na terra andara praticando “quelques mauvais tours”.

 

 

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Contei essas historias, amigo leitor, não para inculcar a idéia fantástica de querer que as instituições do bem comum temporal possam revestir-se de tão extraordinárias feições, mas apenas para dizer, aos filantropos que ousam falar no valor da vida, estas poucas e simples palavras: eles realmente — esses amolecedores de tudo — não fazem a menor idéia do verdadeiro e infinito valor da vida humana.

 

 

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Agora acudiu-me à lembrança a figura de Léon Bloy, o peregrino do Absoluto. Em 1908 preparava-se Blériot para atravessar a Mancha. Entusiasmo. Euforia. O acadêmico Gabriel Hanotaux, traduzindo e condensando em bom francês o creme de mediocridade de todo um século que nascia, pronunciou um discurso que anunciava uma era de paz e concórdia, da qual aquele aeroplano, com um ramo de oliveira em suas rodas, seria o precursor. Lendo a notícia, Leon Bloy registrou no seu Journal o rugido profético: “Preparem os ataúdes”.

 

Diremos nós, hoje: Ampliem os necrotérios.

 

 

Conversa em Sol Maior, Agir 1980.

 

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