A Permanência, seus fundadores, sua história
 

Gustavo Corção

1896 - 1978
 

1968 - 2008

Julio Fleichman

1928 - 2005

 

Fundada em 29 de Setembro de 1968, por Gustavo Corção e diversos intelectuais católicos egressos do Centro Dom Vital, tradicional associação cultural católica, a PERMANÊNCIA surge para militar contra os inimigos da Igreja e propiciar estudo e vida católicas através de publicações, cursos e atividades diversas. Presidiu a Editora Permanência, de 1969 a 2004 Julio Fleichman, que depois da morte do fundador procurou seguir seu exemplo e firmeza na fé até sua morte, em maio de 2005.

Constituiu-se o movimento Permanência como um Centro Cultural sem fins lucrativos e sobrevive graças aos donativos, à venda dos livros editados por sua editora (a Editora PERMANÊNCIA) e ao esforço abnegado de alguns católicos desejosos de PERMANECER firmes na fé e COMBATER.

Em nosso trabalho de estudo e de vida católica, cingimo-nos sempre à doutrina tradicional da Igreja, única e imorredoura, preservando seus ritos e o tesouro de sua doutrina bi-milenar. Sem perder, contudo, a noção da nossa insignificância:

 "Mais do que nunca na história é imperiosa a mobilização de todas as devoções. Temos o direito de reclamar, de acusar, de denunciar, e até de pedir o castigo dos soberbos. Mas todos esses incontestáveis direitos são fracos recursos diante de um dever que pode nos esmagar mas do qual não podemos fugir: o dever de tomar os lugares vazios, as vagas, e o dever de preencher com atos de submissão e de adoração os enormes buracos deixados pelos trânsfugas. Precisamos multiplicar por cem ou por mil as orações de súplica e de adoração, precisamos importunar nosso Pai do Céu com a repetição de nossos atos de Fé, com nossa fidelidade, com nossa incondicional permanência. Nossa pobre PERMANÊNCIA não tem porte para ser "obra", não ganha vulto de "fundação", não pretende ser "movimento": será então uma promessa, um desagravo, uma espécie de oração". (Gustavo Corção)

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O HEROS

A S. Miguel Arcanjo - nosso padroeiro

"O Heros invincibilis, Dux Michael,
Adesto nostri proeliis:
Ora pro nobis, pugna pro nobis, Dux Michael.

"Tu Noster dux militiae, Dux Michael
Defensor es Ecclesiae:
Ora pro nobis, pugna pro nobis, Dux Michael.

"Per te, o heros belliger, Dux Michael,
Prostratus jacet Lucifer:
Ora pro nobis, pugna pro nobis, Dux Michael.

"Ejectis procul hostibus, Dux Michael,
Fer opem desperantibus:
Ora pro nobis, pugna pro nobis, Dux Michael"

Convidamos o leitor a conhecer um pouco mais sobre nosso trabalho:

Os 40 anos da Permanência - 1968 -2008
Sobre a Espiritualidade dos Movimentos Católicos - Artigo de Dom Lourenço Fleichman OSB
―  Entrevista com Julio Fleichman - A amizade com Corção e a história de nosso combate.
―  Repercussão na Imprensa - Recortes dos jornais noticiando fatos sobre a Permanência.
―  Artigo de Nelson Rodrigues sobre PERMANÊNCIA - Uma divertida homenagem do grande pensador.
―  Álbum de fotografia - Começamos a publicar algumas fotos mais importantes
―  Por que o nome "Permanência"?
―  Nossos princípios

In Memoriam: Dom Anjo Ferreira da Costa
 

O NOME "PERMANÊNCIA"

O nome de nosso grupo inspira-se no capítulo XV do Evangelho de São João: "Eu sou a vida e vós sois os sarmentos, permanecei em mim e eu permanecerei em vós", que "gira em torno desta idéia central e até diria obsessiva", como explicou Corção em artigo n'O Globo:

"Onze vezes aparece o verbo latino manere [permanecer] flexionado: manete, manserit, manseritis, manet, manserit, manseritis, manserint, manete, manebitis, maneo. No Evangelho de São Lucas, depois da ressurreição, são os discípulos de Emaús que dizem ao misterioso companheiro de jornada: "mane nobiscum".

Esse termo, que no grego tem o mesmo radical, nunca tem na Sagrada Escritura, e de um modo geral na linguagem cristã, significado de imobilidade ou de fixidez mecânica, e sim o de constância vital e afetiva. Por isso os franceses preferem traduzi-lo por demeurer, em vez de rester, e os ingleses preferem traduzi-lo por abide, como fez o "Rei James", em vez de stay. Em italiano, o verbo é parecido com o nosso (embora também exista o dimorare), e Santa Catarina gostava de usá-lo no fim das cartas: "Permanete nella dolze e santa dilezione di Dio". Temos a sorte de possuir em português o verbo e o substantivo com tão bela aura de significações: PERMANÊNCIA. E com este sinal esperamos vencer, já que atendemos ao mandamento do Senhor e imitamos a impaciência dos discípulos." 

(extraído de artigo de Gustavo Corção publicado em O Globo)

  * * *

NOSSOS PRINCÍPIOS:


1. Encontramos na "Política" de Aristóteles um princípio básico da estruturação das sociedades que poderíamos enunciar assim: "As sociedades são o que são suas famílias".

Em outras palavras, a organicidade de uma cidade verdadeiramente humana, tem base na célula familiar, na constituição sadia e estável da instituição familiar. Os erros estruturais que podem afligir uma sociedade são dois: um da dissolução individualista (erro do liberalismo burguês) outro da absorção dos direitos da família pelo Estado (erro do totalitarismo).

A dureza cristalina da família, a nitidez estável de seus contornos é condição essencial de uma sociedade verdadeiramente humana. Daí nossa repulsa pelo divórcio, à luz da razão natural antes mesmo da iluminação da fé. O divórcio é uma reivindicação individualista, anti-social, e por conseguinte anti-humana. O divórcio, como reivindicação individualista, é essencialmente um erro corolário do erro mais geral do liberalismo; mas é também um erro utilizado pelo totalitarismo, apesar da aparente contradição, porque o totalitarismo aparece (como a história o demonstrou) como uma contraditória conseqüência do liberalismo. Em relação à família os dois erros sociais se encontram com a mesma maléfica eficácia; ambos procuram destruir a estabilidade familiar e a indissolubilidade do vínculo; ambos ferem a lei natural do mesmo modo, embora por motivos e em perspectivas históricas diferentes.

2. Um outro princípio, que tiramos de Santo Agostinho na "Cidade de Deus", diz que uma cidade de homens só é verdadeiramente humana quando respira justiça. Fora dessa condição nós teremos um aglomerado de brutos e não uma cidade humana feita à semelhança de Deus. Do mesmo Aristóteles e de Santo Tomás tiramos o conceito derivado de amizade cívica (amicitia), virtude anexa da justiça, virtude essencial, oxigênio vital para o clima de uma cidade verdadeiramente humana.

3. Ora, esses dois princípios são conexos, porque a família, a casa da família é, ou deve ser, o lugar onde se exercita a amizade cívica, o lugar onde se destila, o lugar adequado onde se prepara o elemento essencial ao bom clima humano da cidade. Esse será o nosso terceiro princípio: a família é o lugar adequado para a germinação da justiça; é a fonte da amizade cívica.

4. Avancemos mais um passo. Na situação concreta do mundo, isto é, no caso concreto de uma humanidade decaída e redimida, o problema moral da cidade, mesmo considerado sob o ângulo temporal, deve ser colocado em sub-alternação aos preceitos divinos revelados, ou como diz Maritain, deve ser colocado em termos de uma moral "adequatement prise".

Nessa nova perspectiva ganha singular realce o papel que desempenham as famílias cristãs. Já não se trata somente de estrutura a sociedade com células normais que resistam à lepra do liberalismo ou ao câncer do totalitarismo; trata-se agora de uma regulação muito mais profunda, de uma atuação mais intensa em que a qualidade domina a quantidade.

Eu diria agora, com mais esse dado concreto da verdadeira condição humana, que uma sociedade humana será medida pelo grau de heroísmo de suas famílias cristãs. E esse é o nosso quarto princípio, que apenas traduza, aplicando-as ao problema da estrutura social, as palavras evangélicas tão conhecidas e tão pouco seguidas: "Vós sois o sal da terra".

5. Dirigindo agora a nossa atenção para a concretíssima conjuntura, isto é, pensando no mundo em que vivemos, no momento histórico que atravessamos, eu estenderia aos outros grupos — associações, escolas, sindicatos — o que disse até aqui da família. E aplicaria a esses grupos, proporções guardadas, os mesmos princípios que acabamos de considerar. E por conseguinte, aplicaria aos movimentos católicos — isto é, às associações fundadas com especificação temporal, como por exemplo a C.F.C. [1] — as mesmas conclusões. E diria assim: a sorte das sociedades depende do grau de heroísmo (de autêntico heroísmo cristão) dos movimentos católicos.

Ainda mais, diria que esses movimentos, pelo seu caráter excepcionalmente militante, devem levar ainda mais longe do que qualquer outra instituição cristã o grau de heroísmo necessário à salvação do mundo. Parodiando Winston Churchill, que traduziu a seu modo inglês as palavras de Cristo, eu direi que nunca, na história do mundo, tantos dependeram tanto de tão poucos. E é essa desproporção que nos deve dar a medida do que Deus espera de nós.

6. O nosso sexto princípio tem nexo estreito com o anterior. Se os movimentos católicos, para atuarem no mundo, precisam de uma forte dose de heroísmo cristão, concluímos que devem ter uma base de espiritualidade de onde lhes venha essa força de sobrenatural fecundidade para estímulo e vitalização de suas tarefas de ordem temporal e profana.

Não se trata de trazer para a tarefa especificada por objeto de ordem natural as virtudes infusas que têm por objeto a salvação e a a vida eterna; mas de trazer para a atuação no mundo um grau de liberdade, uma força de heroísmo que só o evangelho pode dar. Em outras palavras nós diremos que só pode atuar no mundo quem puder afirmar praticamente, efetivamente, a transcendência do homem sobre o mundo. Ou ainda: só pode haver obra social, com interesse fervoroso, para quem tiver cursado a escola evangélica do desapego. E esse é o nosso sexto princípio, de capital importância para os movimentos católicos.

(Gustavo Corção, in  "A Espiritualidade dos Movimentos Católicos", A Ordem, dezembro de 1951)