A nota do Vaticano sobre os Anglicanos

 

Dom Lourenço Fleichman OSB

 

No dia 20 de outubro de 2009 a Congregação para a Doutrina da Fé anunciou o lançamento próximo de um documento estabelecendo uma Prelazia Pessoal para receber os anglicanos que pediram para ingressar na Igreja Católica depois que esta seita começou a ordenar mulheres e homosexuais. Enquanto os leitores de jornais dão vivas a mais um ato do Papa Bento XVI, fico eu cá no meu canto ruminando as coisas, tentando ler o texto apresentado pelo Vaticano sem os sentimentos superficiais que vejo expressos aqui e ali. Queria tentar trazer para a meia dúzia de leitores da Permanência um passo a passo da situação, de modo mais racional:

 

- Em primeiro lugar ficamos sabendo que Roma recebeu pedidos de anglicanos para ingressar na Igreja Católica. Antes de Vaticano II era fato corrente. Parou completamente graças ao ecumenismo desenfreado. Qual a qualidade deste recomeço? Parece-me causado muito mais pelos desmandos e loucuras da atual igreja anglicana do que em função da fé católica. A impressão que se tem é que os anglicanos encontram no ambiente cultural ditado por Roma algo semelhante com o mundo aberto do anglicanismo, mas sem os excessos que os chocaram tanto. O próprio texto da nota, por seu caráter aberto, ecumênico e tolerante deixa a impressão de que não se trata de um verdadeiro movimento de conversão, onde se larga o erro para se aderir à Fé Católica.

- Em seguida, ficamos sabendo que o Papa Bento XVI aceitou estes pedidos e quis oferecer para os anglicanos uma estrutura canônica particular, de modo a que fique firmado um modelo, um protocolo, um procedimento, para novos pedidos de adesão individual vindos do Anglicanismo. Cabe a primeira pergunta: Porquê? À primeira vista um indivíduo que se converte de uma seita deveria simplesmente ser admitido à Profissão de Fé em uma paróquia católica, principalmente em se tratando de uma seita de rito latino. Dentro da prática milenar da Igreja, se exigiria, além da clara profissão de fé católica, a Abjuração ao erro. Porém, Vaticano II já deu cabo deste ato há muito tempo. Além disso, pergunto: porque essa pressa? Porque não experimentar a qualidade de vida católica desses grupos junto à paróquias católicas para, em seguida, se fosse o caso, se pensar em uma estrutura particular? É bem verdade que pergunto isso em tese, visto que não se conhece paróquia atual onde se possa viver de modo íntegro a fé católica. Ou seja, os anglicanos estão deixando os excessos morais do clero anglicano para cair nos excessos doutrinários do clero pós-Vaticano II. Pobre gente!

- O Vaticano informa, então, que o Papa quis oferecer uma Prelazia Pessoal para que estas pessoas pudessem guardar seu precioso patrimônio litúrgico e espiritual. E nos ocorre outra pergunta: Qual patrimônio? Que eu saiba o patrimônio litúrgico e espiritual dos Anglicanos é formado por algo da antiga tradição católica, como todas as seitas, somado a uma série de erros e revoltas que levou estes protestantes a perderem o sacerdócio católico, a falsificarem os sacramentos católicos e a destruirem o celibato dos seus ministros. Não há patrimônio específico anglicano fora da heresia. Ao deixar a heresia, os anglicanos deveriam reencontrar-se com o patrimônio litúrgico e espiritual da Igreja Católica. Se é Católico, é universal, serve para todos os povos.

- Dentro desse contexto impressiona o modo como a nota deixa em segundo plano a integridade da fé, suplantada por outro critério para serem aceitos no catolicismo romano: a unidade, a plena comunhão. Contei nesta curta nota 13 vezes esta expressão que é sempre usada como critério para integrar a Igreja Católica, enquanto que uma única vez é tratada a questão da fé católica. Ora, na doutrina católica, o critério de união com a Hierarquia católica só se aplica quando já está definido o dogma ao qual o convertido adere naquele solene momento. Em quê se acredita?Acredito em tudo aquilo que Deus revelou e que é ensinado pela Igreja Católica. Muito bem, o sujeito aderiu ao principal. Aí sim, vamos ver se ele aceita viver sob a obediência do papa e dos bispos. Ora, todas as passagens que falam de fé, referem-se às tradições anglicanas, ou às tradições culturais trazidas por eles. Sete vezes o texto fala de preservar o patrimônio anglicano. Uma única vez é dito de passagem que os anglicanos aceitam a doutrina do Catecismo da Igreja Católica, que é um resumo da doutrina de Vaticano II em forma de catecismo. Ali se professa a fé no ecumenismo e esta fé é sublinhada na nota do Vaticano. Só podemos concluir que o documento do Vaticano une duas preocupações maiores: que eles tragam sua bagagem espiritual e litúrgica num movimento de união, comunhão, amor. Digo amor para deixar bem claro que o Vaticano estabelece este critério maior da unidade partindo de um ato de amor, de união de amor e de sentimentos com o papa e os bispos. Ora, o que caracteriza a fé e a adesão de fé própria de um convertido é um conhecimento. A pessoa se converte porque viu a verdade, conheceu em sua inteligência as verdades que compõem o dogma católico e aderiu a ele numa aceitação intelectual. Esta adesão terá um ato da sua vontade, mas em busca do objeto próprio que foi conhecido, que é a verdade. Uma vez a fé estabelecida assim, virão os demais critérios para que a ação da alma convertida se manifeste claramente como católica. Ela vai, então, viver na obediência aos legítimos pastores, o papa e os bispos (supondo-se que não ocorra abusos de autoridade como é o caso de Vaticano II e suas falsas doutrinas).

- o grande exemplo do tal patrimônio litúrgico e espiritual trazido pela nota do Vaticano é a pronta solicitude das autoridades católicas em abrir espaço para homens casados serem ordenados padres. E mais uma vez eu pergunto: Porquê? Se já são casados e passam a integrar uma organização onde os padres não são casados, porque abrir tão perigosa exceção para eles? Quais as conseqüências que tal medida pode ter sobre os jovens seminaristas católicos e mesmo sobre o clero católico, já tão mergulhado no pecado?

Diante do que foi publicado na nota do Vaticano, o documento da Congregação para a Doutrina da Fé firma um passo importante na grande reunião ecumênica aspirada por Vaticano II, afastando-se assim, na proporção inversa, da firmeza da fé católica. Não sei o que dizer sobre as intenções desses anglicanos, quantos ali se converteram de verdade, mas sei que a atitude do Vaticano não prima pela clareza das verdades dogmáticas que devem estar presentes em toda Profissão de Fé. A impressão que se tem é que, ao dar tanta importância ao Patrimônio anglicano e aos sentimentos de unidade e comunhão, o Vaticano privou essas pessoas de terem uma noção clara das diferenças doutrinárias que separam a seita protestante inglesa da única e verdadeira Igreja de Cristo.

 

 

 

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