A PROCURA DA SANTIDADE

 

Júlio Fleichman


A nossa circular aos assinantes de PERMANÊNCIA valeu-nos uma porção de cartas e listas de assinaturas, pedindo ao Papa a recuperação da missa que a Igreja sempre celebrou. Estas cartas foram enviadas a Roma apesar de sua insignificância e do pouco que podem pesar, para influir no curso dos acontecimentos.

Mas, impressionaram-nos. São cartas comoventes, inclusive de muitos padres, quase todas acompanhadas de palavras de encorajamento para nós da PERMANÊNCIA. Porém, o que mais nos impressionou foram as palavras de horror que nos chegam de todos os pontos do país, horror e angústia diante do estado a que chegou a Cristandade: os abusos que se multiplicam, de padres e bispos a fomentar ressentimentos e a hospitalizar o Governo o tempo todo; agentes da pastoral a influir sem cessar pela esquerdização da mentalidade comum nos meios católicos; missas sacrílegas; profunda estupidez em matéria de doutrina, pregada dos púlpitos, além do mais com evidente satisfação dos pregadores consigo mesmos; descristianização cada vez maior dos ambientes, das palavras, da atitude, das preocupações de sacerdotes e bispos em todo o Brasil!

Estas almas aflitas dos que nos lêem e nos estimam, precisam de nossas orações. Uma das cartas que recebemos diz: “rezem por mim também pois não é fácil resistir e permanecer quando nem à igreja se vai mais. Quem diria, Deus meu! Eu que assistia duas missas diariamente...”

Suplicamos ao Senhor do Céu, que nos contempla e vê e sabe, o seu socorro. Nossa alma transborda. Que sua Mãe Santíssima proteja os seus outros filhos, cujo sofrimento decorre do anseio de defender sua fé.

Mas a verdade — dizemo-lo pensando no bem das almas — é que esse sofrimento que nos angustia cada vez mais, foi também ocasião de graças espantosas que vimos recebendo nos últimos anos, mediante as quais redescobrimos a antiga sabedoria da Igreja, tocados ao mesmo tempo por Deus com um espírito de penitência e ardente desejo de progredir na caridade.

Só castigados é que aprendemos. Tivemos à nossa disposição durante séculos, tanto quanto hoje, toda a imensa e riquíssima doutrina dos santos que trilharam o caminho da santidade, mas limitávamo-nos a admirar enternecidos esta ou aquela história de santos, este ou aquele episódio. A verdadeira face da Casa construída sobre a pedra de Pedro ficara escondida sob o limo da mediocridade que ora atingia o comportamento de autoridades eclesiásticas e de fiéis, em meio a escândalos como o de Papas renascentistas ou a simonia generalizada, ora a mentalidade comum, deformada de tal sorte, bem nos lembramos todos, que dizíamos, por exemplo: “isso não é conosco, não somos santos”, uma espécie de atitude que implicava também em não termos nada que ver com a santidade. É pois de espantar que na Santa Visibilidade da Igreja, hoje difícil de perceber onde está, se tenha concentrado a Grande Crise em que tombou a Cristandade? Crise sem igual em toda a história e cuja essência é de tal ordem que, temos consciência disso, não pode haver tragédia pior senão em termos de grau, de intensidade, de extensão. Em termos de natureza, não.

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Se o Senhor permitiu que sofrêssemos todo o horror do que hoje nos assola — e é sobretudo horrível ver agora uma atoarda enorme de vozes eclesiásticas, cuja linguagem está em evidente discordância com a autêntica, antiga e perene doutrina da Igreja sem que tal discordância pareça abalar o universo como seria de esperar — Ele não poderia deixar de socorrer-nos, aos simples fiéis, com as graças adequadas. Tão extraordinários como são os tempos, tão grave como é essa profundíssima e terrível crise, pediriam, evidentemente, graças especiais, igualmente grandiosa para que nós, os pobres e infelizes membros do corpo discente e dirigida da Igreja pudéssemos enfrentar, cumprindo o nosso papel, as insídias do Inimigo que invadiu os nossos átrios, segundo a expressão do próprio Paulo VI que tem sobre sua memória, indiscutivelmente, a responsabilidade maior por todo esse descalabro, do qual restam ruínas fumegantes em torno, para quem ainda tem olhos de ver.

Graças especiais extraordinárias, nos foram dadas. Temos diversos sinais disso na vida de todos nós; de uns, para que, gemendo, constatem que ainda resistem, embora a angústia e a aflição pareçam, às vezes, esmagar-lhes o peito; de outros para, infelizmente, terem que responder um dia pelo mau uso que fizeram delas, às vezes por rejeição imediata do socorro que lhes fora dado, com o que, ainda por cima, cometem injúria contra Deus. Todos se lembram, certamente, o quanto era comum pensar-se e como todos nós pensamos que assim devíamos pensar, que certas obrigações não nos dizem respeito porque “não somos santos”, como acima mencionamos. Essa idéia estabelecia uma divisão entre alguns homens, chamados à santidade e os demais para os quais apenas uma espécie de lista de regras de comportamento se tinha por obrigatória. A santidade eminente dos altares, esta, realmente, é dom de Deus apenas para algumas almas grandes, lâmpadas ardentes, que o próprio Senhor Deus acende como farol e guia para os outros homens. Mas estes, para os quais tais guias são propostos, que espera o Senhor deles? Como não ver o imperativo “sede perfeito como vosso Pai celeste é perfeito” se dirige a todos e como não compreender que para isso são acesas as lâmpadas? A santidade não-eminente, escondida no dia-a-dia e na pequenez de nossa condição atual, é dever de todos. É para busca-la que estamos aqui. É por ela que Deus nos fez. É ela a longa aprendizagem do amor divino que Deus quis para nós antes de admitir-nos no céu. Por quê? Porque o Senhor, criador do céu e da terra, não quis tirar do nada uma multidão inumerável de pequenos robôs, os quais, dando-se corda, repetissem com voz de lata: “Santo, santo, santo...” O senhor não quis tirar do nada e até tomou como sua a nossa natureza e a assumiu para vencer o pecado e o mal pela entrega de seu próprio Filho à morte de Cruz, para que pudéssemos aprender a receber docilmente a Sua graça e recebendo-a, e cada vez melhor, alcançássemos a santidade que nos faz dizer, “Abba, pai”, como um filho amoroso cujo coração experimenta dor só com a lembrança de poder de algum modo ofender ou contristar a vontade daquele que o gerou.

Redescobrimos a antiga e permanente sabedoria da Igreja. Reencontramos o fio que aproxima, sobre os séculos, o ensinamento dos mestres verdadeiros da Santa Igreja Católica, o Magistério infalível, a experiência dos santos que este Magistério canonizou para nosso exemplo, do júbilo interior das almas que progridem de claridade em claridade, recebendo graças sobre graças como nos diz São Paulo.

No nosso caso particular, dos homens de nosso tempo, o Senhor nos deixou as obras do grande doutor da Igreja, o Padre dominicano Reginald Garrigou-Lagrange que tomou para si a doutrina comum de São Tomás de Aquino e de São João da Cruz, de Santa Teresa d’Ávila, de São Francisco de Sales, de Santa Terezinha e inúmeros outros grandes doutores dessa antiga ciência mística que o Magistério da Igreja aprovou especificamente em inúmeros atos e pronunciamentos.

O Padre Garrigou bateu-se sobretudo pela afirmação, que hoje nos é mais fácil compreender (e esta é outra graça extraordinária que recebemos) de que a santificação pessoal tem uma dimensão normal, isto é, à medida do homem comum; que é obrigação de todos procura-la e para todos há um modelo pessoal de santificação que pode e deve ser buscado com a ajuda da graça de Deus.

Em grandes livros: “Perfection Chrétienne et Contemplation”, “L’Amour de Dieu et la croix de Jesus”; “Les trois ages de la vie interieure” e muitos outros, o prof. Garrigou-Lagrange, que durante muitos anos foi professor de Teologia Mística no Angelicum de Roma, é mais do que um mestre; é um diretor de almas, que devemos ler já caminhando no caminho que nos cabe seguir; já renunciando de modo absoluto e decisivo — primeiro passo desse caminho — a qualquer apego, a qualquer coisa que seja pecado, quer o pecado mortal, quer o pecado venial deliberado; já procurando discernir em nossa vida particular quais os traços específicos da nossa cruz, não a que possamos inventar, mas a que Deus, Ele mesmo, mestre carpinteiro, talhou para nós segundo a nossa capacidade, que só Ele conhece bem.

Dedicamos pois este número de PERMANÊNCIA aos nossos queridos leitores afligidos em sua fé, chamando-lhes a atenção para a suavidade do amor de Deus, bálsamo que apaziguará nossa alma. Voltemo-nos para os antigos e perenes caminhos da Santa Igreja Católica e, deixando de lado os eclesiásticos exaltados, supliquemos a Deus a vida de perfeição, o refrigério da Cruz, a alegria da Sua presença. Ele não quer que queiramos outra coisa. Chamou-a, Ele mesmo, “o único necessário” (Lucas, 10, 24). Como imaginar que nos dará pedras, se suplicamos pão? Se nós, que somos maus, sabemos dar bons presentes a nossos filhos, quanto mais nos dará seu Espírito Santo aquele Senhor que é a própria Bondade subsistente (Lucas 11, 11-13).

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A redescoberta desse patrimônio e a compreensão dos grandes princípios e do caráter fundamental da verdadeira sabedoria católica da Igreja, postas ao alcance de pessoas comuns com nós, eis a prova maior das graças extraordinárias com que fomos socorridos para podermos suportar a crise extraordinária que a Igreja sofre em nossos dias. É por isso que compreendemos também que nossa bandeira não pode ser apenas o combate pela fé, mas também levar aos nossos leitores aquela descoberta, o mesmo senso da obrigação que temos e ainda mais, digamos sem receio e para o bem de quem nos lê, a imensa responsabilidade que temos todos nós quanto a seguir este caminho, pôr em prática esta doutrina, procurar o Senhor Jesus, desejar a Sua vinda. São estas últimas as palavras com que termina a Revelação Escrita que nos foi deixada: “Maranatha, Vem Senhor Jesus” (Apoc. 22, 20).
 

PERMANÊNCIA, N° 144-145, Novembro-Dezembro de 1980.