O BELO É UM VALOR MORAL INDISPENSÁVEL À SOCIEDADE

 

 

 Henri Charlier

 

 

A arte não é considerada com seriedade pela sociedade contemporânea. Isto não é de espantar pois, hoje, a economia tem precedência sobre os valores morais. A economia liberal, ou antes o marxismo, o capitalismo ou o socialismo põem acima de tudo as forças econômicas e lhes pedem para dar a direção conveniente à sociedade. Ora, é o homem que deveria ser o fim de toda evolução social. Cada transformação mecânica da produção deveria ser precedida de um sério exame de suas conseqüências para o homem e da situação moral a que levaria essa transformação.

 

Não é nada assim. A Revolução Francesa destruiu, entre nós, as instituições naturais que poderiam se opor à hegemonia do dinheiro, entre outras, as Corporações.

 

A arte, chamada de São Sulpício,[1] teve causa, a destruição das corporações de artistas que não teriam nunca autorizado estes estabelecimentos de estatuária.

 

A “questão social” só existe porque nunca se considerou, antes de tudo, pôr o homem nas condições morais de sua felicidade. E o pior da questão social não está na relação entre patrões e operários; está na imoralidade profunda de uns e de outros, e em suas idéias falsas. São as conseqüências de um século de materialismo.

 

Uma sociedade materialista só saberia considerar a arte como um divertimento, procura-la só como uma distração. Seu estado de espírito, infelizmente, influencia os cristãos, assim como em muitas outras coisas. Um padre moço me dizia um dia: “Por que será que o padre X... faz questão de que as igrejas sejam bonitas? Que importância pode ter isso?” Provavelmente ele se achava um puro espiritual, muito acima das considerações naturais. Mas o que pretende ser anjo torna-se besta. O homem natural precisa se converter a Deus; convertendo-se, não perde sua natureza. Conhece-se o uso que o clero, de um modo geral, faz da arte em suas quermesses, festas dos padroeiros e mesmo nas igrejas. Somos levados a achar que os eclesiásticos, em geral, têm sobre a arte a mesma opinião que os materialistas.

 

Ora, o belo não é um supérfluo. Ele está ligado à própria existência das coisas e do homem. Ele não é acrescentado àquilo que é, ele faz parte dele. O belo não é uma conseqüência daquilo que uma coisa é. O belo é o próprio poder criador em seu ato. Isto é o que os antigos filósofos exprimiam dizendo que o belo é o brilho do verdadeiro. O belo não é, em si, distinto do verdadeiro, é o seu brilho. Não há belo sem um verdadeiro do qual ele seja o brilho, mas também não há verdadeiro sem esta luz própria que é a beleza. Deste fato, resulta praticamente, que não se pode conhecer o verdadeiro sem este brilho que o faz visível. Por isso, os grandes pensadores, como São Paulo, Santo Agostinho, Pascal, como os Padres da Igreja são também grandes escritores, quer dizer, grandes artistas que souberam apresentar o verdadeiro com o brilho, a beleza que lhe é natural.

 

Além do mais, Nosso Senhor deu o exemplo. As parábolas são modelos de arte. Toda a obra de arte é uma parábola, quer dizer um conto, onde se parte de uma realidade física para significar uma outra realidade espiritual. Cézanne pinta três maças e isto quer dizer: todas as coisas são diferentes, mas em tudo há acordo; há um princípio de harmonia e esse princípio dura conforme haja verdade nelas, e o verdadeiro é belo. Uma parábola é bem sucedida se o artista é bem dotado, se ele tem o dom de penetrar no ser, assim como um filósofo. Bem entendido, há muito mais professores de filosofia do que filósofos, muito mais professores de desenho do que artistas, porque não é a aprendizagem dos meios de uma profissão que ensina a criar nesta profissão.

 

Como nenhum homem é semelhante a seu vizinho, uns são mais bem dotados para expor os problemas da alma e do ser sob a forma verbal, são os filósofos e os poetas; outros, sob a forma plástica ou musical. Como em geral, os escritores não compreendem nada destas últimas formas do pensamento, só vêem nelas o brilho da verdade, isto é, o belo (o que já é alguma coisa; gostaríamos que o reconhecessem mais vezes e mais cedo); os escritores estão longe de desconfiar que todos os verdadeiros artistas são apaixonados pelo verdadeiro e quando os próprios artistas lho dizem, não acreditam. O próprio Picasso, quando diz de forma agressiva, para chocar as pessoas: “Que me importa o belo... o que me interessa é o drama do homem”, está reconhecendo esta profunda verdade, como La Palisse de que não há belo sem alguma coisa bela, sem um ente (ens), e que não se poderia fazer alguma coisa bela sem dizer alguma coisa do ser. Por outro lado, os que pensam que se ocupam só com o verdadeiro são ininteligíveis se não lhe dão o seu brilho. Como reconhecem, eles mesmos, o verdadeiro sem essa luz intelectual que emana do ser? E no entanto, um desses, autor de uma boa obra sobre a analogia, escreve: “Tributários da metáfora porque se movem ambos, em um extra-racional, o poeta e o teólogo estão muito perto um do outro, tão perto e no entanto tão longe! Pois o domínio do poeta é o infra-racional; é tudo o que não chega a se alçar até a clara luz da inteligência: o sensível, o individual, o sentimental, o fluído e o movimento da vida interior, o ritmo palpitante da duração”.

 

 Citemos um pouco desse “infra-racional”:

 

Source délicieuse en misère féconde.

Que voulez-vous de moi, flatteuses voluptés ?

Honteux attachements de la terre et du monde,

Que ne me quittez-vous, quand je vous ai quittés ?[2]

 

Paro aqui, para não me impor, e tomo Verlaine. Eis aqui ainda, o “infra-racional”:

 

Un grand sommeil noir

Tombe sur ma vie :

Dormez, tout espoir,

Dormez, tout envie !

 

Je ne vois plur rien

Je perds la mémoire

Du mal et du bien...

O, la triste histoire !

 

Je suis un berceau

Qu’une main balance

Au creux du caveau :

Silence, silence !

 

Um grande sono negro

Cai em minha vida:

Dormi, toda esperança,

Dormi, toda vontade!

 

Nada mais vejo

Perco a memória

Do mal e do bem...

Oh! Triste história!

 

Sou um berço

Que uma mão balança

A beira do túmulo:

Silêncio, silêncio!

 

 

A consciência adormecida, a indiferença do bem e do mal, o desespero de um pecador que sente desaparecer em si o livre arbítrio, será isso infra-racional? Arre! E já que nos comprazemos manifestadamente nesse “infra-racional”, citemos ainda:

 

 

Les pas des Légions avaient marché pour Lui.

Les voiles des bateaux pour Lui s’etaient gonflées.

Pour Lui les grands soleils d’automne avaient lui.

Les voiles des bateaux pour Lui s’etaient pliées.[3]

 

 

Não nos embaracemos com a incompreensão das pessoas que só têm um modo de pensar para uso próprio. Se nosso teólogo se faz bergsoniano para rebaixar os poetas, os poetas lhe retrucarão que seu breviário está cheio de “infra-racional”. Os salmos são poesia e seus autores sabiam que faziam teologia. Os salmos mostraram todo o seu sentido depois da Encarnação. E a Igreja continuou: seus ofícios estão cheios, para nossa instrução, para nossa meditação de cada dia, da mais audaciosa poesia. Citemos:

 

“Ele me deixou desolada. — Todo o dia esmagada de dor. — Desolada. Glória ao Pai, ao Filho, ao Espírito Santo. — Ele me deixou desolada”.

 

“Levanta-te, apressa-te, amiga minha, formosa minha, e vem. Porque já passou o inverno, já se foram  e cessaram de todo as chuvas. Ouviu-se na nossa terra a voz da rolinha. — Maria entra na casa de Zacarias e saúda Isabel. — a voz da rola se fez ouvir na nossa terra”.

 

E ainda: “O Espírito Santo apareceu sob a forma de uma pomba. — Ouviu-se a voz do Pai: Este é meu Filho bem amado, em que pus minhas complacências. — Os Céus se abriram no alto. — E a voz do Pai soou: — Este é meu Filho bem amado em quem pus minhas complacências”.

 

O que poderia desmoralizar os artistas não é a incompreensão dos teólogos, mas a comparação do que fazem com estes textos santos.

 

Infelizmente, os filósofos e os escritores pensam que têm a missão de classificar e inventariar o artista. E quando querem “explica-lo” se perdem. Assim como é natural à inteligência analisar as condições comuns a todo ser, em abstrato, quer dizer, enquanto ser, assim também é-lhe impossível “explicar” aquilo que é realmente o ser enquanto existente, neste momento: este homem, esta maçã. E explicar por que este homem ou esta maçã são de uma encantadora beleza é-lhe mais impossível ainda, pois sua beleza está ligada ao mistério de sua existência.

 

Além disso, a Escritura o diz: Deus é razão, pois Deus não tem necessidade de raciocinar, e a inteligência não é a razão. Ora, o amor é feito de belo e de bom, e isto é o verdadeiro: o amor do belo e do bom.

 

Por isso um dos espíritos mais profundos da história do pensamento, Dionísio, chamado o Aeropagita, dizia:

 

“Nossos teólogos indicam por ela, (a palavra amor), uma determinada virtude que aproxima, une e mantém todas as coisas numa maravilhosa harmonia; que existe eternamente na beleza e na bondade enamorada de Si mesma e daí provém tudo o que é bom e belo; que estreita os seres iguais na doçura das comunicações recíprocas, e dispõe os superiores para os cuidados providenciais para com seus subalternos e incita os subalternos a se voltarem para seus superiores, para deles receberem estabilidade e força”.

 

A obra da inteligência está em perscrutar a obra do amor divino sem nunca esquecer que este amor é fundamento e fim de toda a Criação.

 

É entretanto o que faz o racionalismo com um empenho desolador e o esquecimento do belo é a conseqüência do esquecimento do amor.

 

“Também o bom e o belo são idênticos, todas as coisas aspirando com igual força para um e para outro, não havendo nada, em realidade, que não participe de um e de outro... O bom e o belo, unidade essencial, é pois a causa geral de todas as coisas belas e boas. Daí vem a natureza e a subsistência dos seres, daí sua unidade e distinção, sua identidade e diversidade, sua similitude e diferença; daí os contrários se aliam, os elementos se misturam sem se confundirem... Em uma palavra, Tudo o que é, vem do belo e do bom, subsiste no belo e no bom e aspira ao belo e ao bom. É por Ele que todas as coisas existem e se produzem, é por Ele que todas as coisas se movem e se conservam”.

 

Não hesitamos em citar longamente o Aeropagita, pois esses textos são pouco conhecidos. No entanto, na Idade Média exerceram uma influência enorme; São Dionísio é o autor mais citado por Santo Tomás depois de Santo Agostinho. Seu livro foi o livro de espiritualidade da Idade Média. Estes textos são injustamente desdenhados. Os filósofos estão predispostos, por vezo profissional, ao racionalismo. Mas o verdadeiro não é outra coisa do que um conhecimento adequado do ser, quer dizer do belo e do bom. É preciso não esquecer, para classificar logicamente o verdadeiro, que é o belo e o bom. O que move os próprios filósofos senão o amor? O amor do verdadeiro que é o belo e o bom.

 

Dir-me-ão: eis aí considerações bem abstratas para as quais nem nossa cabeça e talvez nem a vossa tenham sido feitas. Então não vedes que a ausência destas considerações nas cabeças dos que são supostos nos governar ou nos dirigir, é uma das causas da infelicidade dos tempos? Estas considerações mostram que o belo está ligado ao ser que é um valor moral indispensável à existência de uma sociedade normal. Porque uma sociedade normal tem por regra e fundamento, não a produtividade e a renda per capita mas os valores morais. Da mesma forma, uma sociedade de formigas. Se as operárias guardassem só para elas, se a rainha se recusasse a pôr, porque dá trabalho, a guerra civil se instalaria e a sociedade acabaria. Mas Deus lhes impôs a boa ordem por um instinto inflexível. A nós, por amor, deu a liberdade, participação de Sua liberdade. Cabe a nós, com Seus ensinamentos e Sua graça, não descarrilhar.

 

Se recusardes a beleza ao povo em geral, se não a oferecerdes com a qualidade requerida para que essa boa gente seja posta em presença das verdades essenciais à vida da alma, o povo procurará a beleza de qualquer maneira, pois esta é uma necessidade da natureza ligada à natureza das coisas. Mas onde e como a achará se não for dirigido? Precipitar-se-á sobre as novelas, correrá ao cinema, comprará discos com canções tolas, no mais das vezes gravosas, fabricadas por homens que em regra só visam o dinheiro. É preciso proteger o povo dessas misérias. Faze-lo materialmente, pela interdição de certas baixezas, é da competência de um governo que tenha cuidado com os valores morais, mas só isso será insuficiente; é preciso substituir o que se interdita pois não se pode contrariar a necessidade natural do belo. É preciso ensinar o povo a amar o belo pelo bom e o bom pelo belo. Os gregos, esses primeiros filósofos, não tinham uma palavra única para unir estes transcendentais?

 

Mas longe de se reduzir esse bom à moral prática, na mediocridade do pensamento, do estilo e da arte, como se faz nos chamados cantos populares, é preciso ir à fonte do belo e do bom. É o que faz a liturgia de nossas grandes festas. Ela é, dizia Péguy, “a teologia distendida”. Neste sentido é preciso compreender que o fiel que canta o Dies irae no ofício dos mortos, afirma as proposições teológicas que governam o Julgamento e os fins últimos do home que esse hino contém e que a afirmação é por assim dizer uma afirmação psicologicamente anterior, distendida e talvez ainda mais profunda... “Assim como, em matéria de fé, Péguy desceu a essa profundidade onde a liturgia e a teologia, isto é, a vida espiritual e a proposição espiritual não se distinguem ainda, assim também, e como escritor, ele desceu a essas profundidades onde a imagem e a idéia estão juntas por uma ligação carnal e ainda não resolvida”.

 

“Um dos resultados obtidos imediatamente é a queda de toda separação arbitrária entre o abstrato e o concreto. O abstrato é incessantemente alimentado pelo concreto; o concreto é incessantemente esclarecido pelo abstrato. A obra não dá ganho de causa nem aos intelectualistas nem aos institucionalistas, já que uns e outros estão atualmente mais ocupados e talvez sempre tenham estado mais ocupados em negar do que em produzir”.[4]

 

O ofício da Igreja foi pensado assim e é isso que confere a essa eminente prece um poder evocador de pensamento nos gêneros mais diversos, um poder de instrução e um poder de formação, uma plenitude de ser capaz de saciar todos os corações. Todos os que rebaixam a arte e o pensamento para coloca-los supostamente ao nível do povo têm um grande desprezo pelo povo. Esquecem primeiramente que o Espírito Santo sopra onde quer, que somente a graça pode fazer penetrar a ordem sobrenatural em nossa miserável natureza; que a graça não parece tomar conhecimento das classes sociais nem dos diplomas e que ao homem atingido pela graça (e não se sabe quem a graça atinge), é preciso uma verdade íntegra, nem amortecida, nem amolecida, nem diminuída, nem transformada em pílulas por pessoas sem vigor. O povo inclui uma elite que é preciso formar, o povo inclui eleitos aos quais falta tudo. Ora, a arte, o estilo de nossos ofícios pertencem necessariamente, enquanto poesia e música, à ordem natural. As reflexões de Péguy mostram como, porque mistério da criação natural, porque analogia, eles podem fazer penetrar, ao mesmo tempo, nas almas o verdadeiro com o belo e o bom, o sobrenatural com o natural. E esse método é indispensável. Ele indica com precisão o momento em que se distingue para a filosofia (mas somente para ela e não no ser) o verdadeiro abstrato do bem vivido e do belo procurado. Pois no ser serão unidos. Mas os hábitos escolares de análise e de dissecação atrapalham os métodos da criação e muitas vezes os atrofiam. A ilusão de que se pode dispensar o belo, quer dizer a própria luz do ser, para se mostrar o verdadeiro provém destas distinções práticas. Mas fazer essas distinções, faze-las justas e úteis é, no entanto, também uma arte e uma arte de luz. Para fazê-las bem, é sempre necessário um método de criação.

 

(Traduzido de “Itineraires” n° 295. Permanência n° 210-211, Maio Junho de 1986.)

 

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Notas:

 

[1] Entre nós, a do tipo “Casa de Sucena”.

[2] Fonte deliciosa em miséria fecunda.

   Que quereis de mim sedutoras volúpias?

   Vergonhosas afeições da terra e do mundo.

   Porque não me deixas, quando já vos deixei?

[3] Os passos das Legiões marcharam por Ele.

   As velas dos barcos por Ele se enfunaram.

   Por Ele os grandes sóis de outono luziram.

   As velas dos barcos por Ele se dobraram.

[4]  É o próprio Péguy quem escreve