Corre, corre! Vão levantar as excomunhões!

 

Dom Lourenço Fleichman OSB

 

Percorrendo nesses dias os sites e blogs ligados à Tradição, nota-se um certo frenesi em torno do levantamento das excomunhões de Mons. Marcel Lefebvre, de Dom Antônio de Castro Mayer e dos quatro bispos da Fraternidade São Pio X. Tenho mesmo a impressão que alguns andam fazendo profecias, doidos para verem suas previsões (enfim) darem certo.

Não posso deixar de comparar essa curiosidade, essa excitação, com o fenômeno Barack Obama, que sacode hoje o mundo político. Aos olhos da multidão, Obama é deus e Bush é o diabo. Obama é o deus que aparece para solucionar todos os problemas e Bush teria sido o causador de todos os males. No mundo religioso, o levantamento das excomunhões é visto como a solução de tudo, e já não se admite a idéia de se preferir alertar para o perigo que nos espera na próxima esquina. Ao contrário: de repente, todos esquecem do modernismo de Bento XVI, dos graves erros que se encontram nas suas duas encíclicas, etc. e passam a lidar com Roma como se, de fato, nós fôssemos culpados por alguma divisão, como se fôssemos fanáticos, retrógrados ou outro epíteto que gostem de nos aplicar.

A Permanência é uma instituição que nunca se deixou levar pelo sentimentalismo, pautando sua análise da crise da Igreja e do mundo, em primeiro lugar, na fé. Que o mundo desabe, que os grandes abusem de sua força para nos ameaçar, que nos excomunguem... não importa o que devemos sofrer por amor da Verdade e da Fé. E recusaremos sempre a calúnia dos que nos chamam de fanáticos ou "fundamentalistas", pois não há nada que possa ser anteposto ao amor de Cristo.

Levanta-se, então, essa multidão de curiosos e nos aponta o dedo dizendo que preferimos continuar excomungados. É fácil se equivocar tirando essa conclusão e eu poderia não perder meu tempo com isso. Mas é preciso alertar as almas que se deixam conduzir facilmente por este ambiente de euforia: para o verdadeiro católico não existe excomunhão e não existe levantamento de excomunhão. Nós não somos culpados de heresia se recusamos os erros de Vaticano II. Eles é que são. Nós não somos culpados de Cisma, se recusamos união à Roma modernista; eles é que se separaram da Igreja de sempre, criando uma nova religião. Nós não temos que nos mover para voltar a lugar nenhum, pois nunca saímos do seio da Igreja; eles saíram, e devem voltar, um dia, pela graça de Deus.

Se em vez de ficarmos dando gritinhos de alegria porque o papa vai levantar as excomunhões, como se isso mudasse realmente alguma coisa na nossa alma,  nós olharmos para esse fenômeno com os olhos da fé e a paz do coração, veremos o seguinte quadro:
- Roma se sentirá feliz porque usou de sua paternidade, boa vontade, misericórdia ou outro sentimento que queiram atribuir à bondade infinita do papa, como gostam de dizer.
- Os fiéis progressistas olharão para nós com ares de curiosidade, talvez como filhos que vissem, de repente, chegar um filho adotivo, bastardo, abandonado: coitadinho!
- Os fiéis "ligados a um sentimento mais tradicional", de Campos, IBP, Barroux, que fizeram acordos com o Vaticano e aceitaram para sempre a missa nova e tantos erros de Vaticano II, poderão olhar para nós com uma mistura de decepção e de arrogância. Afinal, a Fraternidade terá suas duas condições prévias atendidas, e não precisou mover nem uma palha em relação a Vaticano II. Por outro lado, estão tão imbuídos desse ambiente modernista que poderão desprezar a esses católicos que se obstinam a manter-se longe do concílio e da sua obra nefasta.
- Finalmente, os fiéis da Tradição devem continuar a viver suas vidas de católico sem tomar conhecimento desse mundo louco em que se transformaram as paróquias e obras de Vaticano II. Não podemos pôr em risco a nossa fé, só porque Roma levantou as excomunhões. Nada, absolutamente nada nos fará aceitar a missa nova, o ecumenismo, a liberdade religiosa, os discursos cheios de otimismo com os direitos humanos e coisas mais. A única coisa que muda com esse ato do papa, é que a Fraternidade fica à disposição do Papa para se sentarem à mesa e discutirem em termos de verdadeira teologia, os desmandos desse concílio. Na minha opinião, enquanto viverem os bispos que "fizeram" Vaticano II, mesmo se na época eles eram apenas padres peritos, convidados ao concílio, não veremos um resultado prático de qualquer tipo de conversa. E se Roma reconhecer que o concílio é cheio de erros e ambiguidades? Vai mudar alguma coisa no ambiente, no espírito de Assis, na imensidão da obra pós-concíliar que nada tem de católica? Já dizia Gustavo Corção que toda demolição tem algo de definitivo. Não se restaura o que foi por terra.

O que sobra? Sobra a boa vontade de muitos fiéis e padres que nos hostilizam porque não temos o carimbo do Vaticano na nossa carteirinha de católico. Até certo ponto, pode-se imaginar uma relação mais amena com certos bispos, padres e fiéis. Convenhamos, é muito pouco para tanta festa, pois não significa que tenham entendido o fundo da questão. Mas sobra também o risco enorme que, mais uma vez, correm os padres e fiéis da Tradição, pois uma manobra da Roma modernista pode surpreender a muitos, cegando-os, como foram cegos os que fizeram acordos com Roma. Convenhamos, é muito sério para toda essa excitação. Se rezamos quase dois milhões de terços nessa intenção, está na hora, agora, de rezarmos para que Nosso Senhor nos preserve de mais uma dolorosa divisão.

 

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