As armas em que se confiava

Dom Lourenço Fleichman

"Sabei que se o pai de família soubesse em que hora da noite viria o ladrão, vigiaria e não deixaria arrombar a sua casa".
(São Mateus, 24,43)

"Quando um homem forte guarda armado [armatus, no latim] a sua casa, estão em segurança os bens que possui.
Mas se sobrevier outro mais forte do que ele e o vencer, este lhe tirará todas as armas em que confiava, e repartirá os seus despojos". (São Lucas, 11,21)

Temos recebido pela internet todo tipo de argumento para mostrar o bom senso daqueles que não querem dar mais uma arma para os bandidos e traficantes. Diante de um Estado sem autoridade contra o mal e com excesso de autoridade contra o bem, sem poder contar com a reação forte da nossa polícia, que é considerada das mais ineficientes do mundo, seria uma forte arma para o bandido saber que não há mais armas nas casas.

- todos os piores ditadores ordenaram o desarmamento da população - Pol Pot, Mao Tse Tung, Hitler.
- a lei do desarmamento só vai desarmar os homens de bem, os quais ficarão abandonados, pois todos sabem que nossa polícia está entre as mais ineficientes do mundo.
- ela dará mais tranqüilidade aos bandidos pois saberão que nas casas não há armas ou não poderão ser usadas - Países como Inglaterra e Jamaica fizeram a experiência do desarmamento e, ambos, sofreram com o posterior aumento da criminalidade.
- a nova lei só fará aumentar o comércio ilegal e paralelo, diminuindo ainda mais o controle.
etc.

Esses argumentos já servem para ilustrar as conseqüências maléficas dessa falsa "lei" e orientar a escolha dos brasileiros de bem. Mas gostaria de levar o debate à análise dos princípios morais que regem esta questão.

No fundo estamos mais uma vez diante da incongruência de um Direito que já não tem mais a Deus como padrão, já não aceita mais a Lei Natural como critério. O mundo moderno e pós-moderno estabeleceu no seu delírio o poder total do homem, a autonomia total em relação a Deus e à sua santa Lei. Não teve medo, o homem moderno, de tomar para si o conselho da serpente que disse a Adão e Eva: "sereis como deuses". E tornou-se como Deus, coroou-se como soberano. E como ficava difícil estabelecer o pleno domínio de todos sobre todos, inventaram uma palavrinha mágica que cria uma encenação, uma ilusão de ordem, uma caricatura de justiça: "democracia" - segundo seus idealizadores, todo poder emana do povo e é exercido pelo povo. E nesta frase que dá arrepios de emoção nos (bolsos) dos nobres deputados e nos menos nobres "intelectuais" de carteirinha, vai o povo engolindo a serpente e lembrando de um passado desonroso, vivendo num presente doloroso e preparando um futuro não muito promissor. Pela manipulação da opinião pública, pelas mentiras dos livros de história, os homens vão assimilando a palavra "democracia" à noção de "liberdade", de "justiça", de "eqüidade" etc. Mas esta relação só existe na propaganda ilusória – basta olhar para os frutos dos regimes "democráticos" para ver que há algo de podre no reino da "democracia". Porque será que nunca se atribui o triste espetáculo das democracias modernas à sua causa verdadeira? Porque nunca se coloca a única pergunta que precisa ecoar de ouvido a ouvido, de porta em porta, ecoar pelos montes e pelos oceanos, refletindo nos satélites e envolvendo o planeta:

- "O que vale essa "democracia" tão propalada se os frutos são tão maus?"
- "Porque nunca se atribui à democracia representativa a desordem do Estado e a corrupção dos políticos?
- "Porque se critica tanto os regimes antigos baseados num poder que vinha de Deus, se os modernos regimes favorecem piores crimes que os antigos?"
- "Será que a influência da Igreja Católica como existia nos tempos da Civilização Cristã era pior do que a influência universal da maçonaria que nos governa?"

Eles dizem que o direito moderno é um Direito Positivista, e entendem por esse nome um Direito isento, justo e científico. Será assim? A argumentação fica toda por conta do número. Vota-se e a maioria faz a diferença entre o bem e o mal. A coisa já não é boa por sua natureza, mas porque os homens brincando de Deus, determinaram que assim é. Vejam que existe uma infinita diferença entre o voto para se escolher entre dois bens, entre duas coisas ou situações igualmente boas, e o voto para se escolher entre duas coisas ou situações moralmente opostas. Os homens votam entre ser legítimo ou ilegítimo o aborto, o uso da maconha, o casamento de homossexuais ou o regime comunista. Todas essas coisas ferem a natureza do homem rebaixando-o e retirando de sua alma a dignidade que só pode existir no respeito à natureza. Mas a democracia torna legítimo aquilo que é contrário à natureza e os homens passam a ser obrigados (logo já não são livres) a aceitar ou praticar atos contrários à sua natureza. Isso se chama propriamente uma tirania. E aí se encontra a essência da democracia moderna: uma tirania enganadora que aprisiona o homem na sua alma.

No caso da lei que querem votar para que só os bandidos possuam armas, devemos colocar a coisa também na conta desta tirania. Até ontem, um homem podia possuir uma arma de fogo em sua residência e defender o seu domínio contra ladrões e assassinos que o invadissem. A legítima defesa era clara e não havia crime em matar o assassino. A partir da lei do desarmamento, aquilo que era natural, universal e perpétuo entre os homens de todas as civilizações, passa, do dia para a noite, a ser crime. E o ato natural de defender seus filhos dos tarados assassinos leva o pai, o esposo, à prisão, sendo ele o assassino e o ladrão a vítima. Até que ponto chega a pretensão desses senhores no seu delírio de mística divina. Num passe de mágica, mediante um referendo todo ele dominado por técnicas impressionantes de manipulação das consciências, vão dar aos brasileiros a falsa idéia de que foi o povo que escolheu, que legitimou, que transformou o mal em bem, quando na verdade o plano já está todo pronto.

Não é errado e continuará sendo certo, mesmo que a lei passe, defender seu patrimônio e sua vida, defender a vida dos seus. Está inscrito no coração dos homens que ele tem o direito de se defender dos ataques dos seus inimigos, usando armas proporcionais à violência dos ataques. Quando Davi vai ao encontro de Golias com uma funda, por menor que seja a sua arma, não era de natureza diferente da lança do gigante. Ninguém conseguiria se defender de um homem armado de revolver, usando uma espada, pela simples razão que antes mesmo de se aproximar, já estaria abatido pelo tiro. É bom, é legítimo, e continuará a ser legítimo diante de Deus, a defesa com as armas de fogo contra bandidos, traficantes e monstros que não precisam nem mesmo de um motivo para puxar o gatilho das armas mais sofisticadas que o mundo conhece, para matar inocentes dentro de suas casas. Só a CNBB não enxerga isso.

Os assassinos continuarão roubando carros, atirando à esmo nos arrastões e, sobretudo, invadindo nossas casas desprotegidas. O que a nova "lei" nos pede é que morramos como mártires da democracia, como se houvesse heroísmo em morrer por uma falsa paz, por uma falsa lei, por uma falsa deusa democrática. E o pior de tudo é que eles pretendem nos consolar com uma piada: "- Ligue para 190".