Comentário sobre “As Duas Cidades”

de Santo Agostinho

 

 

Por R.P. Dom Emmanuel-Marie André (1826-1903), padre em N.D. de la Sainte Espérance, cura de Saint-Loup, mais conhecido sob o vulgo de « Père Emmanuel »

In « Les deux cités »,

 Troyes, Gustave Frémont, 1911.

  

 

“Dois amores erigiram duas cidades, Babilônia e Jerusalém : aquela é o amor de si até ao desprezo de Deus ; esta, o amor de Deus até ao desprezo de si”.

Santo Agostinho, A Cidade de Deus,

2, L. XIV, XXVIII

 

 

 

 

 TRADUÇÃO: PERMANÊNCIA

2007

 

 

 

 

Introdução. A moral

 

A moral é a ciência que deve regrar os costumes: definir a moral é demonstrar-lhe a indispensável necessidade. É inconteste o reconhecimento dos homens à necessidade da moral. Mas se se trata de descer ao fato, nem todos se põem de acordo de que ponto a moral deveria tirar sua regra e sanção.

 

Não obstante, se nos dispomos à reflexão, não é difícil reconhecer que a moral – conjunto de leis que se impõe a toda humanidade – nada mais é que a expressão da vontade Daquele que criou os homens e outorgou-lhes as leis de conduta e os meios por que podem alcançar seu fim.

 

Donde vem que, sem Deus, não há moral digna desse nome.

 

Ainda assim, homens existem que excogitam inventar uma moral sem Deus; eles a tomaram da natureza, dizem.

 

Ponhamos a mão na massa. A natureza é boa, pois que saíra das mãos de Deus, e a moral conforme a natureza nada mais é que a moral conforme a Deus. Todos os verdadeiros filósofos reconhecem que a expressão mais límpida da lei natural está no Decálogo. Assim, a verdadeira voz da verdadeira natureza não pode ser senão a voz de Deus, ao exarar os Dez Mandamentos.

 

A inteligência da natureza leva diretamente a Deus, seu autor.

 

Contudo, há homens que não querem a Deus, o Decálogo, e ainda assim querem a moral. Onde eles a encontrarão? E, supondo que a encontrem, como a imbuirão da autoridade e da sanção, duas coisas sem as quais não se poderia ter moral?

 

A natureza que recusa a Deus é a natureza decaída: e é nela, natureza decaída, que certos homens de nosso tempo querem fundamentar a moral. É a moral do interesse, ou do prazer, ou da vaidade: em suma, é o que a revelação designa sob o nome de a tripla concupiscência; esta, sendo a fórmula das inclinações da natureza decaída, constitui-se para alguns a regra de dever, a lei moral. Isso é pura e simplesmente a inversão de toda a moral.

 

Já há muito que nós, cristãos, conhecemos a moral da natureza. Estigmatizara-a o apóstolo São Paulo com estas palavras enérgicas: “Caminheis no espírito [moral da verdadeira natureza], não vos conformeis aos desejos da carne [moral da natureza decaída]. A carne tem desejos contrários aos do espírito e o espírito tem-nos contrários aos da carne”. (Gl 5, 17.)

 

Um moralista cristão definiu as características das duas morais, em que uma é a claridade, a outra a escuridão; uma o princípio de todo o progresso e felicidade, a outra o caminho do mal e a ruína neste e no outro mundo. Eis o que disse:

 

 1. A natureza (decaída) tem como fim apenas a si própria

1. A graça (i. é, a verdadeira natureza, restaurada pela graça do Salvador) opera por virtude de Deus, em Quem repousa seu fim.

2. A natureza não quer ser mortificada, nem vencida, nem submetida, nem quer se submeter.

2. A graça suporta a mortificação, resiste à sensualidade, não afeta deleitar-se na própria liberdade

3. A natureza trabalha em prol de seu interesse, calcula o ganho que pode auferir de outrem (Exploração do homem pelo homem).

3. A graça não busca a utilidade nem a vantagem própria, mas sim o que pode ser útil a outrem (Devotamento ao próximo).

4. A natureza é amiga das honrarias (sobretudo quando se acompanham de agrados).

4. A graça sempre se presta à honra e à glória de Deus

5. A natureza é amiga da ociosidade (um dos mais fecundos princípios da imoralidade).

5. A graça sai em busca do trabalho. (O trabalho realizado conforme a Deus é essencialmente moralizador).

6. A natureza cobiça os bens temporais (como se a felicidade estivesse naquela posse).

6. A graça aspira aos bens eternos, não se apega aos temporais; possui seu tesouro no Céu, onde não há corrupção (Daí sermos generosos com os pobres).

7. A natureza é avara, e gosta mais de receber do que dar.

7. A graça é desinteressada, contenta-se com pouco, e julga ser maior felicidade dar a receber.

8. A natureza inclina-se às criaturas, à carne, à vaidade, à distração.

8. A graça conduz a Deus, à virtude, expulsa os desejos da carne, reprime nossos ímpetos.


 

9. A natureza tudo faz pelo ganho e interesse próprio (é o reino do egoísmo).

9. A graça não busca vantagens temporais, e só pede a Deus por recompensa (Princípio da devoção e do desinteresse).

10. A natureza sorri aos poderosos e enaltece os ricos (com intenção de atrair para si uma espécie de sombra, um reflexo do poder e das riquezas alheias).

10. A graça é mais instante ao pobre que ao rico, e agrada-se mais do inocente que do poderoso (inclinando-se aos mais fracos, ela dá-lhes apoio, e recebe deles protestos de estima a Deus).

11. A natureza reduz tudo a si própria (clama por igualdade, para pôr tudo sob seu domínio).

11. A graça reduz tudo a Deus, princípio de todas as coisas (eis a ordem verdadeira, fora da qual não há liberdade).

12. A natureza gosta de exterioridades e de que os sentidos provem por meio da experiência uma multidão de coisas (Nisso, assemelha-se a Eva, que se deleitou na visão, no tato e no paladar).

12. A graça não cuida do que é novidade ou curiosidade: ela sabe que tudo isso é efeito da corrupção antiga (da natureza, da qual fomos remidos e libertos por Nosso Senhor Jesus Cristo).

 

Assim falava, no século XIII, o autor de “A Imitação” (L. III, Ch. LIV). A luta da carne e do espírito era-lhe bem conhecida e, ontem como hoje, existem homens que buscam a lei moral olhando para baixo, enquanto outros, em busca do mesmo fim, olham para cima.

 

Uns como outros trabalham na edificação duma cidade onde esperam ser felizes.

 

 “Dois amores erigiram duas cidades, Babilônia e Jerusalém : aquela é o amor de si até ao desprezo de Deus ; esta, o amor de Deus até ao desprezo de si”.

 

O amor de si até ao desprezo de Deus é a última palavra da moral sensualista, assim como o amor de Deus até ao sacrifício de si é a baliza da moral espiritualista, da moral verdadeira.

 

As duas cidades, as duas morais se rivalizam, e, para repetir aquilo de São Paulo, estão em luta: Sibi invicem adversantur. (Gl 5, 17.)

 

Vemo-las sempre a obrar, sob nossas vistas, mais perto do que poderíamos suspeitar: na intimidade de nossa consciência, escutamos os clamores de guerra partindo de ambos os lados. Se seguimos a moral do deleite sensual, caímos; se seguimos a moral da renúncia e do sacrifício, elevamo-nos; caindo, arriscamos a permanecer caídos eternamente; elevando-nos, desprendemo-nos do mal e vamos a Deus.

 

Das duas vias, uma sugere facilidade: é a que nos conduz à pior situação; a outra sugere toda a sorte de dificuldades: é a que nos conduz à paz de coração, à serenidade de consciência, ao deleite do bem, ao gozo da verdade. Escolhamos e vamos a Deus.

 

 

I. Adentrando na matéria

 

Nada é mais conhecido que estas palavras: o bem, o mau. Sem embargo, é raro saber atribuir à palavra bem o que é verdadeiro bem, e à palavra mau o que é verdadeiro mal. A Santa Escritura nos ensina que há homens que, neste assunto, fazem a mais estranha e deplorável confusão:

 

“Maldito sois, diz o Senhor pela boca de Isaias, maldito sois os que chamam de mal ao bem, e de bem ao mal, que das trevas fazem luz, e da luz trevas, que chamam amargo ao doce, e doce ao amargo”. (Is 5, 20)

 

É raro que alguém chegue a tais extremos, mas não são poucos os que hesitam em chamar o bem de bem e o mal de mal. Somos tíbios, ou porque não sabemos o suficiente, ou porque não queremos confessar nossas convicções e prestar homenagem à verdade.

 

Daí vem que o coração, sem forças para prestar testemunho do bem, perde parte do conhecimento do mesmo bem; é lei da divina justiça que o espírito sofra as conseqüências das fraquezas da vontade. As fraquezas são os frutos habituais das detestáveis concupiscências, e Deus as pune deixando o espírito em um certo endurecimento de coração, justa punição de nossas omissões e covardias.

 

Para que a vontade seja propelida a apegar-se ao bem e rejeitar o mal, é capital saber claramente onde está o bem, e onde está o mal.

 

Desejosos de auxiliar alguns de nossos leitores, escrevemos este pequeno trabalho sobre as duas cidades.

 

 

II. O que se deve entender por duas cidades

 

A palavra cidade designa o conjunto dos homens vivendo sob as mesmas leis e magistrados. Pode-se tratar seja duma cidade em particular, seja duma comuna, como é de costume falar, seja dum Estado, formado por todas as comunas submissas às mesmas leis e poder soberano. « Quid est civitas, diz Santo Agostinho, nisi multitudo hominum in quoddam vinculum redacta concordiæ ? » (Epist., olim V.)

 

Não obstante, queremos tomar a palavra cidade num sentido muito mais amplo: considerando que Deus é o Rei dos Reis, e que criou os anjos e os homens para Lhe servir, diríamos que todos os anjos e todos os homens que são e desejam ser fiéis a Deus formam uma e só cidade, a cidade de Deus, desde que submissos à justíssima e santíssima lei emanada da vontade de Deus,

 

Por outro lado, os anjos e os homens que se não submetem à lei de Deus, mas tomaram por vantajoso submeter-se à lei da vontade própria, formam uma e só cidade, a cidade do mundo, e do diabo, e do inferno.

 

Assim como há uma cidade do bem, há uma do mal.

 

 

III. Princípio constitutivo das duas cidades

 

Santo Agostinho, que nos dera a definição preliminar de cidade, nos vai dar uma segunda, quase idêntica à primeira, mas mais curta. Ele diz: “Civitas, concors hominum multitudo”. (Epist., Olim LII.). Cidade é a reunião dos homens em comunhão de coração, ou, em outros termos, cujos corações se possuem do mesmo amor. Os homens são unidos ou desunidos em função do amor. Dois homens que compartilhem o mesmo amor estão unidos; dois outros que o não compartilhem, estão desunidos.

 

Se há dois amores, há duas cidades.

 

“Dois amores fazem duas cidades”, diz Santo Agostinho. O próprio doutor descreve os dois princípios constitutivos das duas cidades: “São dois os amores, diz ele, em que um é puro, e o outro impuro; um junta, e o outro espalha; um quer o bem comum em vistas da sociedade celeste, e o outro se vale do bem comum e submete-o a seu domínio por orgulho e prevalência; um submete-se a Deus, e o outro Lhe tem inveja; um é tranqüilo, e o outro turbulento; um é pacífico, e o outro sedicioso; um prefere a verdade aos louvores dos palradores, e o outro é ávido de louvores, quaisquer sejam suas fontes; um deseja ao próximo o bem que para si deseja, e o outro deseja submeter o próximo; um governa os homens para o bem do próximo, e o outro para seu proveito; esses dois amores, de que já se imbuíam os anjos, um nos bons, e o outro nos maus, esses dois amores erigiram duas cidades por entre os homens” (De Genesi ad litt., Lib. XI, c. XV.).

 

A natureza manchada do pecado dá origem aos cidadãos da cidade terrestre; os da cidade celeste nascem da graça que liberta desse pecado da natureza. Na cidade terrestre, os homens só vislumbram a terra e o amor-próprio; na cidade celeste, a Deus só distinguem, e Nele a eterna felicidade.

 

O teor dessa doutrina encontra-se resumida na famosa máxima de Santo Agostinho:

 

Dois amores fazem duas cidades: uma é terrestre, obra do amor de si até ao desprezo de Deus; a outra, celeste, obra do amor de Deus até ao desprezo de si. Fecerunt itaque civitates duas amores duo : terrenam scilicet, amor sui usque ad contemptum Dei ; cœlestem vero, amor Dei usque ad contemptum sui. » (De civit. Dei, Lib. XIV, c. XXVIII.)

 

 

IV. Formação das duas cidades

 

Deus é o fundador da cidade santa. Assim é porque Ele o quis; ela só possui o de que Deus a prouvera; ela só quer o que agradou a Deus prometer-lhe; ela só deseja encontrar seu Criador, para Lhe compartir da felicidade.

 

Deus fundou-a desde os santos montes, i. é, desde os céus, com a criação dos anjos. Continuou-a na terra pela criação do homem. Contudo, o homem deve ser cidadão celeste na terra. « Nostra conversatio in cœlis est », diz São Paulo; conforme o texto grego, isso quer dizer que somos realmente cidadãos do céu. Retomemos a definição de cidade: Concors multitudo. Anjo e homem, um e outro, todos são chamados a amar o Criador assim como a se amarem entre si, uns aos outros; tal unidade do amor reúne-os numa mesma cidade, onde Deus é o rei soberano, o legislador supremo e, de igual modo, o Criador.

 

Daí, não consta na Escritura terem construído cidades terrestres Adão, Eva e os de seus filhos que se conservaram fiéis a Deus. De igual modo, os santos que surgiram no correr dos séculos. Escutemos São Paulo: “Animado pela fé, Abraão morou na terra prometida como que em terra estrangeira, habitando dentro de tendas junto a Isaac e Jacó, herdeiros também da promessa: ele esperava uma cidade erigida sobre alicerce inabalável, fundada e concebida por Deus. Todos esses santos morreram vivendo da fé, e confessaram que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra. Ora, homens que nos falam desse modo significam que buscam a pátria verdadeira. E, realmente, posto que pranteassem por aquela de que haviam partido, ainda tiveram tempo de retornar a ela. Mas ansiavam por uma mais perfeita, que está nos céus. Por essa causa, Deus não recusa ser chamado de Deus de Abraão, nem de Isaac e nem de Jacó, pois que lhes construíra uma cidade”. (Heb 11 9-11 ; 13-16.)

 

Não obstante, até entre os anjos houvera as defecções e as quedas, assim como, no seio da humanidade, a queda original e mais as defecções, apesar da promessa de um Redentor. Anjos e homens decaídos perderam, uns e outros, o casto amor do Criador, achando-se unidos por uma como comunhão de não-amor de Deus e de amor a si próprios, formando ontem e sempre a cidade do mal. Satã fora seu primeiro fundador nos céus, e depois dele Caim continuara sua obra na terra. Desesperado da salvação, não aspirando mais pela cidade celeste, Caim – antes de descer ao inferno – quisera para si uma cidade sobre a terra. Dele, diz a Escritura: “Construiu uma cidade” (Gn 4, 17.). Abel, seu irmão, nada construíra, mas pertencia àquela cujo fundador é o mesmo Deus.

 

A Escritura e a tradição chamam às duas cidades Babilônia e Jerusalém.

 

Babilônia significa confusão, Jerusalém visão da paz.

 

A Jerusalém mística começa por Abel; a Babilônia mística, por Caim. Santo Agostinho é o que adverte isso, e acrescenta: “As construções materiais só começariam mais tarde: as duas cidades foram fundadas naquele tempo para serem a radiosa figura das duas cidades principiadas mais atrás, e que devem durar até ao fim para enfim serem separadas”. (Sl 64)

 

 

V. Comparação entre as duas cidades

 

A cidade de Deus é obra de Deus, por um ato santíssimo e boníssimo do Criador, o qual ato, chamando as criaturas racionais à existência, chama-lhes também à graça e, finalmente, à glória, constituindo deles e neles a cidade obra de Suas mãos.

 

Nessa cidade, tudo é bem, já que de Deus vem; tudo é bom, já que para Deus vai; tudo é feliz, já que em Deus permanece para sempre.

 

A cidade do mundo é obra da criatura que se apartou de Deus por desobediência, que vive sem Deus sob o pretexto duma falsa liberdade, e que enfim se dirige à uma infelicidade sem termo no inferno, lá onde os desgraçados terão fome e sede de Deus, e não as poderão saciar Nele.

 

A cidade de Deus, visão da paz, é Jerusalém; aí os corações gozam da eterna paz interior, mas raramente da paz exterior, e deverão sustentar, na maior parte das vezes, uma guerra encarniçada.

 

A cidade do mundo não tem paz interior, e raramente a paz exterior; por isso a Escritura compara-a ao mar: “Os perversos são como o mar agitado que se não pode acalmar, cujas vagas cospem a espuma e o lodo; não há paz para os ímpios, assim disse meu Deus”. (Is 57, 20-21.)

 

A cidade de Deus percorre o tempo para alcançar a eternidade, seu coração fixa-se no Deus que não passará: eis por que os males presentes são impotentes para lhe retirar a paz interior.

 

A cidade do mundo, desesperada da eternidade, deseja fixar-se no tempo, mas o tempo se não fixa nela e lhe rouba a cada dia os objetos de seus falsos prazeres: eis porque não tem a paz.

 

As duas cidades atualmente se confundem e exteriormente se misturam: o filho de Jerusalém se debate com os de Babilônia: podem habitar juntos sob o mesmo teto, viver à mesma mesa, comer o mesmo pão, mas não têm no coração o mesmo amor. Este é, como disséramos, o princípio de distinção entre as duas cidades no presente, tanto como será a causa de sua separação na eternidade.

 

 

VI. Costumes e usos da cidade do mundo

 

Os costumes são o fruto dos amores. Tal amor, quais costumes. O amor de si rege a cidade do mundo: o amor de si deturpado, o amor de si fazendo a si seu fim, sua lei, sua razão de ser, é a negação de Deus.

 

Essa singela observação dá-nos a explicação do ateísmo moderno. Os nossos ímpios trabalham pela lógica do mal, lógica funesta cujas vítimas são eles próprios.

 

O amor de si erigido em lei suprema não encontra em si o contentamento.  Só Deus se basta a si próprio. As criaturas que nesta sublime prerrogativa se fazem de símios de Deus não tardam a reconhecer sua indigência. Na casa de meu Pai, dizia o filho pródigo, até os mercenários têm pão em abundância, conquanto nesta terra padeço grande fome (Lc 15, 17).

 

Assim, carecida de tudo, a criatura olha para volta de si ou para baixo; diligencia por aqui e por lá, em busca de glória, ou de haveres terrenos, ou de prazeres: é o amor próprio compelido a sair de si, revelando-se sob a forma de uma das três concupiscências, buscando atrair para si o que satisfaça sua necessidade de amar, de fruir, de possuir, necessidade invencível e contudo insasiável.

 

A moral da cidade do mundo – moral sem peias, como vimos – mana da funesta fonte do amor próprio, fonte esta que se divide em três braços e se espalha por todos os lados, para difundir sua indigência, mendigar contentamentos, mas sempre em vão, pois os contentamentos se vão e a indigência permanece.

 

A fruição do presente é uma das características da cidade do mundo e, por amor do gozo atual, sacrifica a esperança futura.

 

Santo Agostinho diz algures que, na cidade de Deus, o coração purifica a carne: “Per cor caro mundatur.” (De civit. Lib. X, c. XXV). Mas na cidade do mal o coração, que está entregue ao amor-próprio, é ele mesmo manchado, e não tarda a manchar a carne que deveria salvar.

 

Por isso que na cidade do mundo não se deseja o casamento santificado, mas as uniões livres, i. é, a liberdade da desordem. E dentro do casamento, não se lhe deseja os frutos.

 

Eis alguns exemplos de costumes que nos dá a história. “Santo Agostinho ensina-nos que os Maniqueus, que se não permitiam o casamento, permitiam-se coisas diversas. Segundo seus princípios, dever-se-ia ter horror à concepção em si. Por vezes, esses heréticos mitigavam sua visão de casamento. Um certo Hartuvin permitia a um rapaz desposar uma moça...desde que não fossem além do primeiro filho”. (Bossuet, Hist. des Variations, liv. XI.)

 

Nessas condições, a mulher é sem dignidade, a vida sem honra e felicidade, e a morte sem esperança. Sobra apenas, como diz São Paulo, a terrível expectativa do julgamento e o fogo consumidor dos inimigos de Deus (Heb 10, 27).

 

 

VII. Costumes e usos da cidade de Deus

 

A cidade do mundo ama à sua maneira, mas a cidade de Deus ama à maneira de Deus. Aqui, toda a lei resume-se na caridade, e no amor de Deus e no do próximo. “A caridade, diz Santo Agostinho, a caridade é doce no dizer, e mais doce no fazer. Dilectio, dulce verbum, sed dulcius fac­tum. » (In Epist. S. Joann. Tract. VIII.)

 

O homem interior nos ordena amar a Deus e Nele buscar a felicidade; o homem exterior nos ordena amar o próximo e desejar-lhe a felicidade em Deus conosco; se tudo se encontra ordenado a Deus, tudo se encontra ordenado entre os homens.

 

Por essa razão, todas as legislações dignas do nome são tomadas dos dez mandamentos de Deus; os legisladores reconheceram que não saberiam regrar os Estados senão à imitação, dentro da medida do possível, da legislação da cidade de Deus, a qual cidade é a primeira entre os Estados, e por conseguinte a regra e a salvação dos Estados temporais e transitórios.

 

Antes de tudo, a cidade de Deus professa o respeito a Deus, respeito que chamamos de adoração: conseqüentemente, professa o respeito ao próximo, que é obra de Deus e a quem deve-se amar por causa de Deus.

 

A moral cristã decorre toda daí, assegurando a eterna alegria dos homens, e granjeando-lhes a maior paz e felicidade possíveis aqui na terra, de sorte que, se a humanidade inteira estivesse unida em adoração a Deus e na prática de sua lei, veríamos diminuir em proporções incalculáveis os males que nos afligem cá embaixo, e a terra poderia vir a ser, como outrora o paraíso terrestre, a terra poderia vir a ser o vestíbulo do céu.

 

Eis uma coisa sobre a qual não refletimos o bastante, e no entanto o que é mais desejável senão trabalhar em prol do repouso e do bem da humanidade na terra, afim de que todos possuam a maior felicidade possível, a de encaminhar-se em direção à felicidade eterna.

 

Fosse a cidade de Deus livre nesta terra, pudesse ostentar todos os títulos de caridade que Deus inspira no coração de seus filhos, seria maravilhoso ver quantos sofrimentos desapareceriam, quantos pobres seriam consolados, quanto o trabalho seria facilitado, quanto a vida presente seria mais feliz que a vista por nós.

 

Não obstante, a cidade de Deus não é livre: possui a liberdade interior de amar, mas não a liberdade exterior de fazer render todos os frutos que esse amor poderia dar; ela sofre por isso, e reza, e clama a Deus a libertação, a liberdade, a verdadeira liberdade[1].

 

 

VIII. Luta entre as duas cidades

 

Os homens foram criados para viver em sociedade: acolhem-se uns aos outros, desejam unir-se, agrupar-se, para se ajudarem mutuamente e fruírem juntos os bens da sociedade.

 

Essa ordem vem de Deus, e guardar-se-ia inviolável e fielmente se o pecado não introduzisse a desordem no mundo e não erigisse uma cidade ao lado da cidade de Deus.

 

Todavia, os habitantes da cidade do mundo não rejeitaram de todo o antigo laço social criado por Deus, e por isso inclinam-se à união com os outros homens numa mesma comunidade de amor, de costumes e, por isso, numa mesma cidade.

 

Por outro lado, a cidade de Deus, fiel a seu Criador, aspira à reunião dos homens no conhecimento e no amor de Deus, para que todos partilhem nela e com ela dos bens da casa de Deus.

 

Daí, podemos notar os pontos fundamentais da luta entre as duas cidades. Cada qual apetece a prevalência do amor que carrega no coração, e os costumes que se seguem a ele.

 

A cidade do mundo tem seus amores lisonjeiros, seus erros enganosos, suas ameaças e perfídias espantosas – amores, errores, terrores, diz Santo Agostinho –, e com tais armas trava luta contra a cidade de Deus

Por seu turno, a cidade de Deus tem em si o casto amor de Deus e do próximo, tem a fé, e com a fé, a verdade e suas obras de paz, de devotamento com todos e para todos, e nas armas divinas suporta os assaltos da cidade do mundo e salva os filhos de Deus.

 

Houve luta desde que houve dois irmãos sobre a terra: Caim e Abel são o começo e o modelo das duas cidades. Caim mata, Abel é vítima: mas o que mata está mais morto que a vítima, Abel sucumbe e triunfa.

 

A cidade do mundo oprime amiúde a cidade de Deus: quanto mais se eleve, mais formidável será a queda. A cidade de Deus, em aparência derrotada, é a vitoriosa, porque Deus está com ela.

 

 

IX. De Jerusalém a Babilônia

 

Na luta contínua entre as duas cidades, vemos por vezes os habitantes de uma passar para a outra. Todo exército tem seus desertores.

 

Acontece que os habitantes da cidade de Deus, não sendo mais fiéis ao seu Criador e Salvador, tornam-se filhos de Babilônia. É o homem que vai de Jerusalém a Jericó, e cai nas mãos dos salteadores, que o despojam e o cumulam de golpes: assim é o desertor da cidade de Deus, despojado dos dons da graça e ofendido no que lhe resta. É o filho pródigo que, desejando viver em liberdade, deixa a casa do pai e despede-se para um país distante, onde tomará conta dos porcos. O país distante é Babilônia.

 

Assim também são os heréticos e os cismáticos que, após receber o batismo, apartam-se da comunidade católica, rompem os laços da fé e da caridade que os faziam cidadãos de Jerusalém, e vão habitar a cidade que construíram para si, nisso muito semelhantes a Caim.

 

Não são diferentes muitos católicos que, ao perder a caridade, permanecem em estado de pecado habitual: vivem nele como que em segurança e morrem numa falsa tranqüilidade. Eles também se bandearam de Jerusalém a Babilônia.

 

Mas todos esses homens pertenciam mesmo a Jerusalém?

 

“Eles partiram conosco, diz São João, mas não eram dos nossos, pois que se fossem, ainda estariam conosco” (1 Jo 2, 19).

 

Nesses homens, o pecado que Adão introduziu na humanidade suplantou a graça que lhes dera Nosso Senhor. Eis um mistério formidável e causa de dores amaríssimas e profundíssimas para aqueles cujos corações habitam em Jerusalém.

 

 

X. De Babilônia a Jerusalém

 

Alguns concidadãos de Jerusalém talvez se encontrem um tempo perdidos em Babilônia. Caíram aí por causa do pecado original ou do pecado atual, mas num dado momento – Deus o sabe – saem do cativeiro e participam da liberdade. Escutemos a São Gregório: “O Senhor, por um de seus profetas, disse: Iràs a Babilônia e lá serás liberto (Mq 4, 10). Não raro um homem imerso na confusão dos vícios, aborrecendo o mal que cometeu, faz penitência e soergue-se das culpas por uma via santa. Não é este aquele que fora a Babilônia, e aí se libertara? Sim, sua alma era só confusão, e fizera a iniqüidade, mas depois, envergonhado do mal, investe contra si mesmo e, pelo bem que faz, regressa ao melhor estado. Ele libertara-se em Babilônia, a divina graça salvou-o do país da confusão.” (Ezech. Lib. Hom. X.)

 

A passagem de Babilônia a Jerusalém não é fácil: o caminho por vezes encontra-se obstruído. É normal que haja luta, e luta contra si mesmo, e contra os habitantes de Babilônia que querem ficar por lá e querem conservar consigo os que lá estão.

 

Vimos que em alguns filhos de Jerusalém prevalece o pecado, mas vimos também que em alguns filhos de Babilônia prevalece a graça de Nosso Senhor; os que se deixam tocar por Deus abandonam Babilônia, não pertencem mais a ela, e vêm a Jerusalém na busca e na certeza da paz dos filhos de Deus.

  

 

XI. Os fins das duas cidades

 

Por fins das duas cidades devemos entender não o que lhes fará deixar de ser, mas o termo além do qual não há mais o que buscar, mais o que esperar. Deus em si é o fim da cidade de Deus; o mal absoluto é o fim da cidade do mundo. Dum lado, o bem soberano, doutro lado, o mal soberano; dum lado, a vida eterna, doutro lado, a morte eterna.

 

Os santos, os fiéis que não amaram a terra nem a vaidade desse mundo, encontrarão a Deus, a quem amaram acima de tudo. Nada perderão do que amam se abandonam a vida presente; os que creram, verão e, nesta visão de paz, serão bem-aventurados.

 

Os infiéis, os pecadores, não possuirão nada do que amaram, nem possuirão a Deus, a quem rejeitaram: terão em si a causa de sua desgraça; não podendo mais morrer, estarão em morte eterna.

 

“Depois da ressureição e do julgamento universal, as duas cidades terão chegado a seu temo, a de Jesus Cristo e a do diabo: uma é a dos bons, a outra a dos maus, uma e outra por sua vez feita de homens e anjos. Os bons não poderão mais pecar, os maus não o poderão mais desejar. Não haverá mais a expectativa da morte, nem para os que viverão no contentamento da vida eterna, nem para os que – sem poder morrer – padecerão da infelicidade da morte eterna, pois que uns e outros estarão lá para todo o sempre.” (S. Aug. Enchirid. Cap. XXXI.)

  

  

 

XII. A queda de Babilônia

 

São João, no seu Apocalipse divino, narra-nos a queda de Babilônia, assim: “Vi um anjo que descia do céu, de grande poder, e a terra iluminava-se da sua glória.

 

E ele bramia com força, e dizia: Caiu, caiu a Babilônia, a Grande.

 

Todas as nações beberam o vinho da sua prostituição: os reis da terra se corromperam nela, e os mercadores da terra se enriqueceram do seu luxo.

 

Então escutei outra voz que vinha do céu e dizia: Fugi dessa cidade, ó nação minha, para não terdes vós parte dos seus pecados, e não sofrerdes de suas pragas.

 

Fazei a ela o que fizera convosco: multipliqueis seus tormentos e dores, na proporção com que se entregara ao orgulho e ao luxo. Ela falava ao seu coração: estou no trono como rainha, e não viúva, e não conhecerei o luto.

 

Por isso, num só dia se abaterá sobre ela todas as pragas: a morte, o luto e a fome, e será consumida pelo fogo, pois é Deus forte que a julgará.

 

Os reis da terra chorarão sobre ela; os mercadores da terra chorarão e lamentarão sobre ela, pois que mais ninguém lhes comprará os carregamentos de ouro ou prata, de pedras preciosas ou pérolas, de linho ou escarlate, de seda ou marfim, de bronze ou ferro, de mármore...

 

Regozijai, ó Céus, e vós também, ó santos, Apóstolos e profetas, porque Deus declarou o justo a Babilônia. (Ap 18.)

 

Dessas palavras, tiramos que três coisas fizeram Babilônia, e três a arruinaram: o orgulho, o luxo, a astúcia, ou seja, as três concupiscências. Somos punidos no veículo do pecado: Per quæ peccat quis, per hæc et torquetur. (Sb 11, 17)

  

   

XIII. A cidade de Deus na eternidade

 

O grande profeta do Novo Testamento vai nos descrever agora a glória da cidade de Deus.

 

“Escutei depois disso como que vozes dum grande coro vindas do céu, e dizia: Aleluia. A nosso Deus a salvação, a glória e o poder, pois que seus juízos são justos e verdadeiros, e executou a justiça na grande prostituta que corrompeu a terra de sua prostituição, e pediu contas do sangue dos seus servos, que ela espalhou com suas mãos, e repetiam: Aleluia.

 

Vi a cidade santa, a nova Jerusalém, e escutei uma poderosa voz que dizia: eis o tabernáculo de Deus e moradia dos homens, e Deus morará com eles.

 

Deus enxugará todas as lágrimas de seus olhos, e não haverá mais morte, nem choro, nem luto, nem dor, nunca mais, porquanto o primeiro estado já passou.

 

E o que estava sobre o trono disse: eis que renovo todas as coisas. E me disse: Escreve, eis que são palavras verdadeiras e certas.

 

E continuou: é certo, ao que tem sede lhe darei de beber da fonte de água viva, sem empecilhos.

 

O que for vencedor possuirá tudo isso, e eu serei seu Deus, e ele o meu filho.

 

Mas os tímidos, os incrédulos, os detestáveis, os homicidas, os fornicadores, os peçonhentos, os idólatras e todos os mentirosos terão seu quinhão na lagoa fervente de fogo e enxofre.

 

Foi quando um anjo me mostrou a grande cidade, a nova Jerusalém: o que tiver maculado não entrará lá, nem os que cometem a abominação e a mentira, mas só os que foram inscritos no livro da vida do Cordeiro.

 

Não haverá mais condenação, mas sim o trono de Deus e o do Cordeiro, e seus servos o servirão.

 

Eles verão a face de Deus, e terão seu nome marcado na fronte.

 

Não haverá mais noite, nem precisarão de candeia, nem da luz do sol, porque o Senhor Deus os iluminará, e reinarão pelos séculos dos séculos”. (Ap 19-22)

 

Gloriosa dicta sunt de te, civitas Dei. (Sl 86, 3)

 
 

 

Traduzido por PERMANÊNCIA a partir de  http://perso.orange.fr/contra_impetum/2cite.htm

 


 


[1] No Padre-Nosso, dizemos a Deus : Adveniat regnum tuum… Libera nos a malo ; e nas suas orações, diz a Igreja : Destructis adversitatibus et erroribus universis, Ecclesia tua secura tibi serviat libertate(Or. A Cunctis.) Populum tuum, quæsumus, cœlesti dono prosequere, ut perfectam libertatem consequi mereatur. (Or. du Lundi de Pâques.)

 

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