CONSIDERAÇÕES SOBRE A MISSA

 

 

 

Bem! É triste dizer, há cristãos fieis à comunhão que não sabem assistir a missa. Nossos pais [...] tinham da missa uma idéia que os cristãos de hoje já não têm mais. Há poucas coisas grandes na terra; mas há, como diz Bossuet, um fato que é o acontecimento dos séculos: a encarnação de uma pessoa divina, a imolação do calvário, figurada durante quatro mil anos pelos holocaustos e os sacrifícios da era patriarcal e da era mosaica. Esse grande acontecimento que se realizou no Golgota e que se reproduz todos os dias, de instante em instante, na terra, é a grande maravilha do mundo. Se o bom Deus ainda suporta a terra, apesar do que vós e eu vemos, é porque esta maravilha realiza, aqui, sem fim, a palavra do profeta: do nascer ao por do sol (Malaquias, I, 11). E como, em relação à extensão total do globo terrestre, o sol não se levanta nem se deita, mais leva sucessivamente sua luz às diversas partes do mundo, o sacrifício do Homem Deus é um sacrifício perpetuo, um sacrifício sempre em ato: um sacrifício perpétuo (Daniel, XII, 11). 

 

A parte mais secreta do cânon da missa é indicada por estas palavras: Intra actionem: “Durante a ação”. Com efeito, todas as outras coisas que se passam e se realizam aqui em baixo são verdadeiramente mínimas em comparação com esta, que é a ação por excelência. Ai está o principio, ai está o fato essencialmente conservador. O salmista disse: nem adormecerá aquele que ti guarda (Sal. CXX, 3). A Igreja, a sociedade cristã precisa ser guardada; é uma necessidade de todas as sociedades na terra. Nós que somos seus pastores e seus guardiões por oficio, infelizmente, acontece dormirmos, cochilarmos; mas aquele que guarda Israel não dormirá. A todo instante ele desce do alto do céu, este Deus feito homem, a fim de pagar a divida total da humanidade. [...] Associar-se [à missa], é trabalhar com ele. Dizer: tenho uma vida por demais ativa para poder ir a missa, é um contra senso, já que, para o dia do cristão a missa dá o primeiro impulso, o mérito e a eficácia da ação.

Cardeal Pie

Oeuvre t. IX p.637

Na cruz, Jesus Cristo apazigua por seu sangue a cólera de Deus, satisfaz sua justiça, expia o pecado e merece a salvação do mundo. Mas o sacrifício que ele realiza ainda não dá atualmente aos homens as graças das quais ele é a fonte, ele os prepara e os dispõe para recebê-las pela expiação previa do pecado. É por seu sangue e sua morte que ele o faz e é pelos sacramentos e sobre tudo pela Santa Eucaristia, que a graça de Jesus Cristo é comunicada. O sacrifício da cruz é assim o sacrifício da redenção e do mérito, porque merece tudo, mas não dá e não aplica nada; e o sacrifício da missa é o sacrifício da aplicação e da santificação porque dá e aplica tudo, mas não merece nada.

Padre De Condren,

Idée du sacerdoce e du sacrifice de Jesus-Christ, cap. VII.

Em suma, o Calvário é a fonte, o altar é o canal; o calvário recolheu o sangue de Jesus, o altar leva aos borbotões este sangue derramado por nós, e com ele rega os campos de almas, fecundando-o, e germinando sementes de santidade. Em vão as águas brotarão da montanha, se o rio não as levar para a planície. Assim a imolação do Golgota restaria ineficaz sem a Missa que toma as graças e que as distribui. Sem duvida, todos os sacramentos tiram sua virtude do sacrifício da Cruz e todos comunicam os méritos; mas porque a só Eucaristia renova e reproduz o sacrifício, também somente ela é o centro dos outros sacramentos e seu fim.

Buatier,

Le sacrifice dans le dogme catholique p. 114.

A heresia de nosso tempo é a negação deste reino [reino social de Jesus Cristo]. De todos os lados ressoa o grito da parábola evangélica: “Nolumus hunc regnare super nos! Não queremos que ele reine sobre nós!” Nem as leis se fazem mais em seu nome, nem segundo o Evangelho, são feitas contra ele. É o inimigo e a guerra lhe foi declarada de todos os lados ao mesmo tempo, no terreno das doutrinas e no da ação.

[...]

O Apocalipse fala de uma arvore cujas folhas curam as nações (Apoc. XXII, 2): esta só pode ser a arvore da Cruz. A sociedade só se decompõe e periclita porque tem horror a Cruz, porque voltas as costa ao Crucificado, porque a idéia do sacrifício a horroriza, porque, entregue exclusivamente a procura dos prazeres materiais e esquecendo as esperanças do alto, não tem mais coragem para os deveres austeros.  Para trazer de volta a saúde a esse corpo doente, é preciso que o sangue do Calvário circule outra vez nele e infunda pelos sacramentos a vida eterna; é preciso retornar ao nobre repouso do domingo e a união fraterna da oração pública, voltar também às santas reabilitações da penitencia, com as forças e as alegrias eucarísticas. Voltaire dizia: “Os povos que se confessam são fáceis de governar”. Para sair de tal boca, a palavra não podia ser mais exata. Um povo que se confessa e que comunga é um povo onde as coalizões do egoísmo dão lugar às harmonias do devotamento.  Já notava Tertuliano: “Os cristãos mais completos são também os melhores cidadãos”.

[...]

Ora, a religião que tem sobre a terra sua expressão mais completa em uma sociedade e esta sociedade realiza o ideal social tanto quanto pode ser realizado pelos homens: é a Igreja.

Sociedade perfeita e universal, diretamente estabelecida por Jesus Cristo, tendo por fim o reino de Deus e por missão a salvação das almas, tem por meio as virtudes que produz pelos sacramentos. Nascida no Calvário guarda e distribui o sangue divino, prolongando assim no mundo a redenção de Jesus. O altar é seu centro, a cruz seu símbolo, o sacrifício sua vida. Poderíamos defini-la: uma sociedade fundada na Cruz pelo Crucificado, para conduzir os homens ao céu pelo sacrifício.

Idem, p. 345 e seg.

 

Se o sacrifício da missa se extinguisse, não tardaríamos a recair no estado depravado onde se encontravam os povos manchados pelo paganismo e esta será a obra do Anticristo.  Ele usará de todos os meios para impedir a celebração da santa missa, afim de que este grande contrapeso seja abatido e que Deus ponha fim a todas as coisas, não tendo mais razão para fazê-las subsistir. Podemos facilmente compreender porque, depois do protestantismo, vemos as forças diminuírem no seio das sociedades. A guerras civis eclodiram, trazendo com elas a desolação e isso unicamente porque a intensidade do sacrifício da missa diminuiu. É o começo do que acontecerá quando o  diabo e seus sequazes forem desencadeados por toda a terra levando a inquietação e a desolação como Daniel nos advertiu.

 

Dom Guéranger

 Explication de la sainte messe, p.107

  

 

 

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