Prática na Dominga Segunda da Quaresma

[ou Da Paixão de N. S. Jesus Cristo – I]

Padre Manuel Bernardes

 

Esta e a seguinte Prática com tema avulso pregou o Autor

 em ocasião que se lhe pediu falasse da Paixão de Cristo;

 e por serem muitos discursos os repartiu em duas Práticas debaixo do mesmo tema.

 

Super lapidem unum septem oculi sunt:

Ecce ego caelabo sculpturam ejus.

(Zach. 3). 

 

Se Deus fizesse alguma vez o oficio de estatuário, que perfeita e admirável sairia uma imagem das suas mãos? Mas esta suposição que eu apreendia só possível, no Profeta Zacarias a leio atualmente efetuada. Mostrou Deus ao Profeta uma misteriosa pedra esculpida, e disse-lhe gloriando-se da obra que ele mesmo fora o artífice: Ecce ego caelabo sculpturam ejus. Escultura aberta pela própria mão de Deus, e de que o mesmo Deus se gloria! Vinde almas e atendei: sem dúvida, aqui há muito que ver. É verdade, e já em prova disso adverte o texto, que sobre esta pedra estavam sete olhos, não entalhados, ou feitos da mesma Pedra (dizem Lira, Vatablo, Sanches e outros), senão de fora olhando atentamente como admirados dos primores de seu artifício: Quem septem cernunt oculi, verte o Caldeu, e concorda a exposição do Beato Alberto Magno: Septem oculi, idest septem circunspectiones, que esta pedra respondia a sete aspetos, ou era objeto de sete diferentes vistas.

 

Que misteriosa pedra seja esta, dizem comumente os S.S. P.P. que é Cristo Crucificado, porque primeiramente este Senhor, em sua Paixão Sagrada (segundo profetizara Davi e interpretou o mesmo Cristo)[1], foi pedra reprovada do seu povo, e escolhida por Deus para Capitel do místico edifício de toda a sua Igreja. Quantos golpes, quantas chagas, quantos tormentos padeceu no corpo e na alma, tantos lavores se esculpiram nesta pedra; e suposto que as mãos de seus inimigos foram os instrumentos, todavia à de Deus se atribui a obra, sem cuja permissão nenhum golpe poderia tocar na pedra: Sculpture (diz. S. Gregório) nihil aliud fuerunt, quam foramina vulnerum ejus, quorum clavi, spinae, et lancea instrumenta Divini artificis fuerunt[2]. Mas que sete olhos são estes, que atendem a escultura de Pedra, ou que sete aspetos diferentes são os que nela se representam? Se me é lícito proferir, o que nesta parte sinto, parece-me que toda a alma devota que atentamente empregar os olhos em Cristo Crucificado, há de descobrir neste admirável objeto sete objetos os mais relevantes que a Religião Cristã professa, e em que toda ela se cifra, são estes os seguintes: primeiro, a graveza do pecado; segundo, a terribilidade do inferno; terceiro, a grandeza da Glória; quarto, o valor da Alma; quinto, a esperança do perdão; sexto, o caminho da virtude; sétimo e último, o excesso do amor Divino. Torno a dizer: sabeis, Católicos, que é o que vemos quando vemos a Cristo Crucificado? Vemos uma horrorosa sombra de fealdade do pecado; vemos uma comparação significativa das penas do Inferno; vemos uma medida certa das grandezas do Céu; vemos o preço justo do valor de uma alma racional; vemos um fortíssimo argumento da esperança de nossa salvação; vemos um livro compendioso dos ditames da perfeição Evangélica; e vemos um retrato vivo das finezas do amor divino. Eis aqui sete aspetos diferentes, que se descobrem nesta Pedra; eis aqui sete vistas, ou circunspecções, com que devemos atender à sua escultura, que bem mostra ser da mão do artífice Supremo: Super lapidem unum septem circunspectiones: ecce ego caelabo scumlpuram ejus.

 

O tempo é de meditar em Cristo crucificado: aqui temos seu ponto para cada dia da semana. Hoje falaremos dos primeiros três; na prática seguinte continuaremos com os outros quatro.

 

 

§ I

 

O Primeiro aspeto, que se nos representa na admirável escultura desta misteriosa Pedra, é uma sombra ou semelhança mui própria da fealdade do pecado. Notável sentença a de S. Paulo, quando escrevendo aos fieis de Corinto sobre o mistério da Cruz, diz: Que Deus Nosso Senhor, não sabendo Cristo seu filho por experiência o que era pecado, por amor de nós o fez ou constituiu pecado: Eum qui non noverat peccatum pro nobis peccatum fecit[3], e de que modo, ou em que sentido, podia Cristo, que é suma inocência, ser pecado, e pecado por constituição de Deus, que é a mesma Santidade? Primeiro, que satisfaça a esta dificuldade: suponho que de qualquer corpo oposto à luz necessariamente resulta sombra na parte contrária. E como Deus é luz, e a esta luz se opôs direitamente aquele corpo, que o mesmo S. Paulo chama do pecado: Corpus peccati, necessariamente havia de resultar sombra deste corpo de pecado, que é a pena que por ele se deve, porque toda a pena é sombra da sua culpa, pois assim como a sombra segue o corpo, e quanto este é maior, tanto maior é ela; assim a pena segue a culpa, e quanto a culpa cresce mais, cresce mais a pena.

 

Isto suposto, fez Deus a Cristo, por amos de nós, pecado, não quanto ao corpo verdadeiro do mesmo pecado, senão quanto à semelhança ou sombra deste corpo; não quanto à comissão da culpa, senão quanto a tolerância da pena. Do primeiro modo não foi, nem poria ser Cristo pecado, porque repugna à sua inocência e santidade, mas do segundo modo podia ser, e é de fé que foi pecado para exaltação de sua justiça e misericórdia, porque se Cristo não fora pecado quanto à sombra da pena, não tirara de nós o pecado quanto à verdade da culpa; e isto significou também Isaias quando disse que Deus pusera em seu filho todas nossas maldades. Posuit Dominus in eo iniquitatem omnium nostrum[4], como se dissera, explica um grave Expositor[5], que passou e trasladou de nós a seu inocentíssimo filho todas nossas culpas como se nele ficassem encostadas: Ut silicet illae a nobis in Christum translatae, in ipsum quasi recumberent. De sorte que como Cristo se pôs da parte dos pecadores, ficou sua inocência como que assombrada e coberta das trevas do nosso pecado, não podendo em si ter pecado: Eum, qui peccatum non noverat, pro nobis peccatum fecit.

 

Quem quiser pois medir a grandeza do corpo do pecado, olhe para a sombra que este causou no corpo de Cristo. Os altos montes medem-se pela sombra que fazem, e porque a sombra da terra chega a escurecer o firmamento, coligimos que o corpo da mesma terra é vastíssimo; logo, se a sombra do pecado chegou a escurecer o mesmo filho de Deus, quem deixará já de reconhecer a grandeza do corpo do pecado? Santo Agostinho, depois de confessar humildemente muitos de seus pecados, diz que isto de consultar as sombras para lhe darem respostas nunca o fez: Umbrarum responsa nunquam quase sivi. Mas todavia no presente caso, bom é perguntarmos às sombras, e ouçamos o que nos respondem, pois o que lá fora superstição curiosa, aqui é próprio conhecimento mui necessário. Penas de meu Senhor JESU Cristo, já que do meu pecado sois sombras, dizei-me quão grave é o meu pecado: Responde mihi quantas habeo iniquitates, et peccata. Levanta, Alma minha, os olhos para aquelas sombras, e ouvirás bem clara a resposta: que é o que vês em Cristo Crucificado? Uma cabeça cingida de atrevidos espinhos; uns amorosos olhos eclipsados com sangue e lágrimas; um divino rosto afeado e denegrido com salivas e golpes; umas entranhas secas e mirradas à violência de tormentos; um virginal e delicadíssimo corpo pendente de três cravos, desfazendo-se em grossas chuvas de sangue sobre a terra; uma alma a mais santa e a mais atribulada; um amor o mais fino e o pior correspondido; um inocente entre malfeitores; um Deus em suplício. Oh!, que sombras tão dilatadas! Oh!, que trevas tão horrorosas! Pois por essas sombras verás se é grande e monstruoso o corpo do teu pecado: Quantas habeo iniquitates.

 

Santo Astério, Bispo de Amasea, disse[6] que um homem se podia ver em outro homem como em um espelho, em razão da semelhança da natureza e obrigação da caridade. Cum vides hominem te ipsum in ipso vides[7]. Mas se Cristo é por excelência o homem, e com este nome foi mostrado ao povo no meio de suas penas e aflições: Ecce homo, e este homem tomou sobre si a semelhança de nossas culpas representadas em suas penas, muito melhor se pode dizer que quando qualquer pecador olha para este Senhor Crucificado, asi mesmo se ve nele: Cum vides hominem te ipsum in ipso vides.

 

 

§ II

 

Tão certo é que as penas de Cristo, nosso bem, são sombra causada pelas nossas culpas, que tanto que no mundo houve pecado, logo em Cristo houve morte de Cruz. A este Senhor chamou o seu amado discípulo S. João Cordeiro morto desde o princípio do mundo: Agni qui occisus est ab origine mundi[8]; que Cristo não obstante ser pastor: Ego sum pastor, foi Cordeiro; e não obstante ser a mesma vida: Ego sum vita, por nosso amor se sujeitou à morte: nós o confessamos e lhe rendemos por tão estupenda fineza infinitas graças. Mas que este Cordeiro fosse morto desde que o mundo é mundo, como concorda isto com o que todos sabemos do tempo, em que o Senhor veio ao mundo e padeceu; e como concorda com o que S. Paulo diz, que o Senhor não convinha que padecesse desde a origem do mundo! Alioquin oportebat eum pati ab origine mundi[9].

 

É verdade que Cristo não morreu desde o princípio do mundo quanto ao efeito, mas desde o princípio do mundo morreu quanto à causa: no primeiro sentido fala S. Paulo, no segundo fala S. João, porque a causa da morte de Cristo foi o pecado, e como logo no princípio do mundo houve pecado, logo então houve morte de Cristo: Agni, qui occisus est ab origine mundi. Se não houvera pecado, Cristo viera ou não viera ao mundo? Não o sabemos de certo, mas se não houvera pecado morrera Cristo? É certo que não. Logo, tanto que o pecado começou a nascer, começou a morrer Cristo. Já quando o primeiro Adão estendia as mãos desobedientes à árvore vedada, estendia também o segundo Adão as mãos obedientes na árvore da Cruz. Já quando ele provava o pomo, provava Cristo o fel. Já quando ele se envergonhava de sua desnudez, despojavam a Cristo de suas vestiduras; porque enfim, no conhecimento de Deus, a causa eficaz e certa reputa-se por efeito, e se Adão já pecador foi a origem do mundo, que muito que Cristo padecendo por causa de Adão padeça desde a origem mundo: Agni qui occisus est ab origine mundi?

 

Escreve-se que um homem caminhando por uma estrada onde uma Cruz estava arvorada, em reverência sua não quis pisar-lhe a sombra; porém quanto ele desviava mais os passos, tanto a sombra da Cruz crescendo os ia perseguindo, até que o caminhante tomou por outra vereda, e deste modo escapou de seus inimigos, que encobertos lhe esperavam para dar-lhe morte. Neste milagroso caso estendeu-se a sombra da Cruz; no nosso caso estendeu-se a mesma Cruz, que é sombra de nossos pecados. A sombra da Cruz estendeu-se para desviar os homens da morte; a sombra de nossos pecados, que é a Cruz, estendeu-se para dar a morte a Cristo. A sombra salutífera da Cruz estendeu-se até o fim do mundo; a sombra mortal de nossos pecados estendeu-se até o princípio do mesmo mundo; enquanto houver Cruz de Cristo, há vida para os pecadores, e desde que houve pecadores, houve morte de Cruz para Cristo, pois como desde o princípio do mundo houve pecadores, como não havia de haver morte para Cristo desde o princípio do mundo: Agni qui occisus est ab origine mundi?

 

 

§ III

 

E não só representa sombra das penas de Cristo a graveza e antiguidade de nossos pecados, senão também a sua multidão. Ouçamos outra vez S. Paulo: Tentatum autem per omnia pro similitudine absque peccato[10]. Diz que Cristo foi provado e exercitado em todo género de penas à semelhança. Pro similitudinem, à semelhança? E aqui para o texto. Parece que esta oração fica imperfeita e como suspensa: à semelhança de quê? De nossos pecados, que pecados próprios nenhum podia ter o Senhor; por isso diz o mesmo texto: absque peccato, mas nossos pecados teve-os todos: Posuit Dominus in eo iniquitatem omnium nostrum. Pois como nossos pecados foram de todo género, de todo género foram em Cristo as penas à semelhança de nossos pecados; seus desprezos foram à semelhança de nossas presunções; suas dores à semelhança de nossos deleites; sua pobreza à semelhança de nossas demasias; seus desamparos à semelhança de nossas consolações. Todas as feições do corpo do pecado retratou no corpo de Cristo a sombra de suas penas, ou para que o digamos com palavras de um varão igualmente espiritual e discreto: tudo o que em nós são culpas, neste Senhor são chagas[11]: Tentatum per omnia pro similitudine.

 

Esta mesma verdade se faz mais ilustre e patente com um doutrinal oráculo do Espírito Santo no livro do Eclesiástico: Contra malum bonum, et contra mortem vita, et sic intuere in omnia opera Altissimi: duo, et duo, et unum contra unum[12]. Com tal ordem dispôs a mão do artífice supremo as cousas do Universo, que todas de duas em duas vão contrapostas umas às outras: contra o mal o bem, contra a morte a vida, contra o dia a noite, contra o fogo a água, e assim do mais. Isto pois que vemos na fábrica da natureza resplandece proporcionadamente na ordem dos bens da graça, para que se entendesse que o mesmo Autor teve a redenção do mundo, que tivera a sua criação. Por onde, como nos filhos de Adão tudo eram culpas, no filho de Deus tudo foram penas. Vedes ao filho de Deus com um cetro de cana na mão? Esta é a sombra das nossas pompas e vaidades ridículas; vedes-lhe coberto o rosto com um véu ignominioso? Essa é a sombra da nossa falta de fé quando diante dos olhos de Deus pecamos como se não nos vira. Vede-o com uma coroa de espinhos na cabeça? Essa é a sombra de nossos pensamentos altivos e juizos temerários. Queremos conhecer nossa ambição? Olhemos para a sua sede. Desejamos formar conceito de nossa crueldade? Olhemos para a sua lançada. Deram ao Senhor vinho misturado com fel: estas são as nossas intenções torcidas. Revezaram-se os algozes para multiplicar açoutes sobre seu sagrado e virginal corpo: essas são as nossas reincidências, com que não cessamos de pecar, senão quando já não podemos pecar mais. Um ministro vilíssimo se atreveu a por a mão sacrílega naquela face, em que se revem os anjos: isso fazemos nós quando impugnamos a verdade conhecida. Partiram-lhe e jogaram-lhe os vestidos: eis aqui as nossas rapinas e furtos cometidos até no lugar sagrado. Finalmente, em tudo correm emparelhadas as nossas culpas com suas penas: Duo, et duo, et unum contra unum.

 

Oh!, alma minha, que eficaz e poderoso motivo se te propõem neste espetáculo para te envergonhares de ti, e para amares a este Senhor: Fili hominis ostende domini Israel templus, et confundantur ab iniquitatibus suis, et metiantur fabricam, et erubescant ex omnibus, quae fecerunt[13]. Homem, dizia Deus ao Profeta Ezequiel, mostra a este povo o templo, para que se confunda de seus pecados; meçam-lhe a fábrica para que se envergonhem do que fizeram. Qual é o templo, senão o corpo de Cristo? E o templo destruido e arruinado em sua morte e Paixão Sagrada, como ele mesmo disse: Solvite templo hoc. Pois alma, olha, não digo já, para a fábrica do templo, senão para a sua destruição; mede aquelas lastimosas ruinas da Humanidade santíssima de Jesus, e confunde-te de teus pecados; envergonhaste do que fizeste, não tens que perguntar pela causa:

 

Quae causa indigna serenos

Foedavit vultus, aut cur haec vulnera cerno?[14]

 

pois bem sabes que teus pecados o feriram, o desprezaram, o crucificaram; que podes agora fazer, senão confundir-te? Erubescant ex omnibus, quae fecerunt.

 

Mas a esta confusão de ti próprio deves acompanhar com intensos atos de amor de tão bom Deus, que por tua causa padeceu tanto. S. Ambrósio reparando no amoroso afeto com que o bom ladrão acudiu pelo Senhor na Cruz, diz que a causa disto foi reconhecer que as Chagas do Salvador, ainda que abertas em seu Sacratíssimo corpo, não eram tanto suas como do mesmo ladrão que as via, e por isso se moveu a amá-lo e defendê-lo: Scivit quod illa in corpore Christi vulnera, non essent Christi vulnera, sed latronis; atque ideo plus illum amare coepit[15]. Sendo pois tão certo e tão manifesto que os tormentos que este Senhor padeceu somente são seus no que toca à pena, e totalmente nossos pela parte da culpa, obrigação precisa nos corre a todos os pecadores de o amar com mais vivo afeto e com todas as forças de nosso coração, pois cada um de nós pode com verdade dizer que com seus pecados foi o que abriu a escultura desta Pedra. Ego caelabo sculpturam ejus.

 

 

§ IV

 

O Segundo aspeto da escultura desta misteriosa Pedra oferece aos olhos uma comparação mui significativa dos tormentos do Inferno, porque se tanto padece o filho de Deus por culpas alheias, que podem esperar os filhos de Adão pelas próprias. Rabano, autor grave e antigo, proferiu esta notável proposição: Passim Christi tartarum perfodit[16]. A Paixão de Cristo abriu, esclaou, ou fez uma brecha no Inferno: está bem; logo (infiro eu bem agora) por entre as penas da Paixão de Cristo, podemos nós ver, como por uma brecha, as penas que encerram o tenebroso e secreto bojo do Inferno. Assim é na verdade, porque se alguém atentamente empregar os olhos da consideração neste Senhor entregue ao suplício da Cruz, em companhia de malvados e blasfemos; rodeado de legiões de demónios, que ali assistiam, e para o Senhor não eram invencíveis; reputado por inimigo de Deus; reprovado da Igreja daquele tempo, que era a Sinagoga; ardendo em vivas labaredas de tribulação em corpo e alma; anelando por uma gota de água: Sitio, e não lhe sendo concedido; expulsado fora dos muros de Jerusalém e Crucificado com as consta para o templo de Deus; e finalmente desamparado até de sua própria Divindade: Deus meus, Deus meus, ut quid dereliquisti me[17]?, não dirá senão que tem presente e quase palpável uma semelhança do mesmo Inferno.

 

E dirá que o mesmo Senhor antecipada e repetidamente o tinha significado em vários lugares da Escritura; em uma parte disse: Dolores inferni circumdederunt me, Cercaram-me os tormentos do Inferno; e em outra disse: AEstimatus sum cum descenedentibus in lacum[18], fui contado no número dos que caem no lago. Por lago entende S. Jerónimo[19], e S. Agostinho, a profundeza do Inferno para onde os condenados se vão escondendo e sumindo da superfície da terra como águas muitas para uma balsa ou lago; e por Jeremias disse: In tenebrosis collocavit me quasi mortuos sermpiternos[20], fiquei totalmente às escuras como os mortos sempiternos; quais são os mortos sempiternos, senão os condenados em diferença dos outros mortos temporalmente, cuja morte acaba no dia do Juizo, quando ressuscitarem, que nos condenados a ressurreição é como se não fora. Non resurgent impii in judicio. E tal estava o bom JESUS em razão de nossas culpas imputadas, e de suas penas verdadeiras, que parecia condenado, e por tal foi tido de seus inimigos: Quod crederetur (diz o doutíssimo Lorino) aeterno supplicio dignus, et in damnatorum infernum detrudendus[21].

 

E daqui fica entendido aquilo dos Cantares: Dura sicut Infernus aemulatio, que a emulação ou zelo é duro e alheio de toda a comiseração como o Inferno, porque ou o entendamos do zelo falso dos inimigos de Cristo, ou do zelo verdadeiro do mesmo Senhor, ambos o apertaram tanto, um por fora, outro por dentro, um por ódio, outro por amor, como pudera apertá-lo o mesmo Inferno. Do zelo falso de seus inimigos diz S. Gregório: Sicut Infernus sine misericordia quos tenet, cruciat, ita Judaica plebs Christum apprenhedens sine respectu pietatis ad mortem trahebat[22], que assim como a garganta do Inferno com os que uma vez engoliu, não cura mais de ter misericórdia, assim o povo Judaico caindo-lhe aquele inocentíssimo Cordeiro nas mãos o arrastou para o suplício, sem a mínima atenção de piedade; este mesmo aperto que fez por fora o ódio farisaico, fez por dentro o amor de Cristo, e zelo verdadeiro da honra de Deus, e salvação do mundo à competência, e por emulação do ódio refinado que a Deus e às almas tinham os demónios: Zelus animarum, diz o Alapide, urit aeque, atque ignis, flamaeque infernales[23], porém com esta diferença: que sendo para o Senhor estes dois zelos, dois infernos, o inferno do amor que nos teve foi tanto mais duro que o do ódio que lhe tiveram, quanto mais insaciável. Inferno no Hebraico chama-se Scheoll, que quer dizer insaciável, e que sempre pede mais: idest Postulans, e suposto que o inferno do ódio pediu para o Senhor penas e mais penas: Crucifige, Crucifige, enfim ficou saciado. Mas o inferno do amor ainda depois de entrarem as águas das tribulações até a alma do Senhor: Intraverunt aquae usque ad animam meam, disse que tinha sede de padecer: sitio.

 

Agora no nosso primeiro intento: se tal foi a Paixão de Cristo, que por muitas vias e razões competiu com o Inferno, qual será o Inferno dos que se não aproveitarem da Paixão de Cristo? Se Cristo, pelo zelo da honra de Deus e salvação dos homens, se viu desamparado de todos os homens e de Deus, qual será o eterno desamparo de quem desprezou a sua salvação e a honra de Deus? Logo, a Paixão do Senhor abriu o Inferno para podermos ainda cá de fora divisar suas penas: Passio Christi tartarum perfodit.

 

E ainda falando materialmente, parece que assim sucedeu, porque quando na morte de nosso amabilíssimo Salvador tremeu a terra e se rasgaram as penhas no monte Calvário (teatro o mais trágico, que nunca houve nem há de haver, pois se representou nele realmente a morte da mesma vida) entre a Cruz do Senhor e a do mau ladrão, se abriu uma fenda capaz de um corpo humano, e tão profunda que não se lhe achando fundo, se fazia verossímil chegar às entranhas do Inferno. Assim o escrevem Eusébio Cesariense[24], e Adricómio Escritor[25] das cousas da terra santa; e esta maravilha alegou Luciano presbítero Antioqueno em uma oração que fez em defensão da fé. Bem pudera esta prodigiosa boca da terra não ser tão profunda, e ser em outro sítio do monte, mas ser logo entre a Cruz do Senhor e a de um réprobo, e tão funda que se cria chegar ao Inferno? Parece que foi dizer-nos que as penas de Cristo na Cruz são uma fenda por onde podemos ver as penas de um réprobo no Inferno, já que o réprobo, para evitar as penas do Inferno, se não soube aproveitar das penas de Cristo na Cruz.

 

 

§ V

 

No caminho para o mesmo monte Calvário, deixava já o Senhor feita esta comparação e argumento, porque lamentando-se e chorando sobre ele algumas mulheres piedosas, o Divino mestre não perdendo, nem ainda no meio de seus maiores trabalhos, ocasião de fazer o ofício de mestre, lhes disse assim: filhas de Jerusalém, chorai sobre vós e vossos filhos, porque se no ramo verde sucedeu o que estais vendo, que será nos secos? Si in viridi ligno haec faciunt, in arido quid fient[26]. Não pode haver ramo mais verde e frutífero do que Cristo filho de Deus, nem ramos mais seco e estéril do que um réprobo filho do diabo. A verdura daquele é impossível secar-se, a secura deste é impossível reverdecer, porque aquele ramo tem dentro em si mesmo a fonte que o rega da graça e santidade, que é a natureza Divina, e estoutro ramo está possuido daquele espírito que Joel chamou fogo que queima a frescura dos campos: Ignis comedit speciosa deserti[27]; e Jeremias, vento que seca todos os caminhos por onde passa: Ventus urens in viis[28]; logo, se no ramo verde prendeu tal furor e violência o fogo da tribulação por pecados alheios, como se ateará no ramo seco pelos próprios: In arido quid fiet[29].

 

O glorioso Doutor Santo Agostinho[30], ponderando as penas com que Deus N. Senhor exercita nesta vida a seus filhos, que são os Santo, achou que formava bom argumento para demonstrar as que no inferno padecerão os pecadores: Si flagellantur filii, quid debent sperare servi niquissimi[31]. Achou bem: mas com sua licença, se o argumento de Cristo não fora de Cristo, senão puramente meu, ainda o meu argumento era melhor que o de Santo Agostinho, e isto em razão de duas circunstâncias muito vantajosas da parte do Senhor. Primeira, que o filho de Deus natural excede infinitamente mais a outros filhos de Deus adotivos, do que estes filhos adotivos excedem aos pecadores; segunda, que o que padeceram todos os Santos juntos, ainda entrando nessa conta os mártires, foi quase nada em comparação do que padeceu Cristo, como diz com o comum dos PP. S. Boaventura, donde se infere o mesmo Santo que mais atormentou a Cristo um só cravo do que a S. Lourenço e a S. Vicente o seu fogo: Clavus ferrens multo plus afflixit Christum, quam ignis Laurentium, et Vicentium[32]; logo, se do nada que padeceram os filhos de Deus adotivos acha Santo Agostinho que forma bom argumento para provar o muito que padecerão os condenados: Se flagellantur filii, quid sperare debent servi nequissimi, muito maior argumento para provar o que padecem os condenados se forma do muito que padeceu o filho de Deus natural: Si in viridi ligno haex faciunt, in arido quid fiet.

 

Católicos, quereis descer com a consideração ao inferno dos condenados? Subi com a consideração à Cruz de Cristo: os tormentos do filho de Deus e terno objeto de seu amor vos pregarão quais podem ser os tormentos dos inimigos de Deus, eterno objeto de sua ira. Aquela súplica que o rico avarento fez a Abraão, e ele lhe não despachou, por um maravilhoso modo vejo aqui despachada: levantou o rico avarento os olhos lá desde o profundo de seus tormentos, e com voz lúgubre e miserável clamou dizendo: Pai Abraão, eu tenho no mundo cinco irmãos; mandai a Lázaro que lhes pregue para que não venham a precipitar-se em semelhante desgraça: Rogo ergo te Pater, ut mittas cum eum in domum patris mei. Respondeu Abraão: lá tem a Moisés e os Profetas, creiam-nos se quiserem: Habent Moysen, et prophetas audiant illos.

 

Notai agora: Cristo na Cruz (como advertiu sabiamente Santo Agostinho[33]) foi Lázaro despido e chagado às portas do rico avarento, isto é, as portas de Jerusalém e do seu povo, que dele não fez caso; e este figurado Lázaro, antes de descer aos infernos está pregando que cousa é inferno; é verdade que para nos convertermos e temermos o inferno, bastavam as Escrituras Sagradas e os exemplos dos Santos: Habent Moysen, et prophetas, mas porque a falta de nosso temor e desengano se não atribua à falta de pregador, venha Lázaro, e mais que Lázaro a pregar-nos o que há no outro mundo: Sicut dives petit (diz S. Pedro Crisólogo[34]) Deus Lazarum pro Lazaro misit, porque qual é para mais para lhe dar crédito? Tornar a esta vida um morto, ou sujeitar-se à morte a mesma vida? Que é mais, subir do limbo à terra um Lázaro, ou descer do Céu para subir a Cruz um Deus? Pois se um morto ressuscitado era bom para pregador das penas do outro mundo, muito melhor pregador delas será um Deus morto: Sicut dives petit, Deus Lazarum pro Lazaro misit.

 

E que clama este Lázaro subindo à Cruz em lugar do outro Lázaro subindo do inferno? Si in viridi ligno haec faciunt, in arido quid ficit? Clama que se o filho de Deus é castigado tão severamente por pecados alheios, como o serão os ímpios por pecados próprios? Se assim é tratada a suma inocência, mansidão e humildade, como será tratada a nossa soberba, ira, obstinação e insolência. Se tanto pesa a mão de Deus sobre os ombros do filho, que zela a sua honra, como pesará sobre os inimigos, que a desprezam? É possível que houve espinhos para a cabeça da segunda Pessoa da Santíssima Trindade; houve fel para a boca donde procedem as palavras de vida eterna; houve pregos para as mãos, que fabricaram os Céus e terra; houve salivas para o rosto, de cuja luz e fermosura vivem os Anjos? Que tormentos, que opróbrios, que amarguras, que confusão haverá para os escravos do diabo e tristes vítimas da perdição eterna? Oh!, temamos pecadores, temamos o cálix da ira de Deus, que amarga muito, e se dele bebeu Cristo grande parte, as fezes todavia ficarão guardadas para os pecadores obstinados: Verum tamem fez ejus est exinanita: bibent omnes peccatores terrae[35]. Creiamos este Lázaro coberto de chagas, que as suas chagas são a escultura da Pedra aberta pelo mesmo Deus para nos explicar por elas, como por outras tantas bocas, a terribilidade das penas do Inferno: Ego caelabo sculpturam ejus.

 

 

§ VI

 

Pelo profeta Evangélico se intitula Cristo Salvador nosso, sinal para a parte do Céu, e sinal para a parte do inferno: Pete tibi signum à Domino Deo tuo in profundum inferni, sive in excelsum supra[36].Vimos como a Sagrada Paixão deste Senhor para os que dela se não aproveitam é sinal ou representação do inferno; vejamos agora como a mesma Paixão para os que dela se aproveitam é sinal ou representação do Céu, e ficaram temperando-se o temor e a esperança: Signum in profundum (diz Hugo Cardeal) est timor gehenae: signum in exccelsum, spes gloriae[37]. Por isso o Senhor quis padecer entre dois ladrões, um deles réprobo, outro predestinado, para nos dar a entender que sua Paixão Sagrada é juntamente motivo de temor e de confiança, porque é sinal que ao mesmo tempo aponta para duas contrárias partes, para as profundezas, e para as alturas: Signum in profundum inferni, sive in excelsum supra. Este pois é o terceiro aspeto que se nos representa a escultura da nossa mística Pedra, uma medida certa da grandeza da Glória.

 

Diz S. João no seu Apocalipse que vira um Anjo medir a celestial Jerusalém com uma cana de ouro, que para esse efeito tinha na mão, e chama a esta cana medida do homem, que é a do Anjo: Mensura hominis, quae est Angeli[38], medida do homem, que é a do Anjo? Que quer isto dizer? Todos os expositores confessam a escuridade deste texto, mas a versão Arábica nos dá alguma luz para o nosso intento, porque constroi: Mensura hominis, qui est Angelus, medida do homem, o qual é Anjo;  e que homem Anjo é este, com cuja medida se mede aquela Cidade bem-aventurada? Não acho quem com maior propriedade e excelência se possa intitular homem Anjo do que Cristo Senhor nosso, o qual sendo homem por natureza, foi Anjo por ofício. Anjo quer dizer: Núncio, Legado ou pessoa mandada por outra a algum negócio[39]; e como os Anjos são mandados por Deus para administrar a salvação das almas[40]: Omnes sunt (diz o Apóstolo) administratorii spiritus missi propter eos, qui haereditatem capiunt falutis, dali vem que estes espíritos soberanos se chamam Anjos, não porque este nome seja próprio da sua natureza, senão do seu ofício; logo, Cristo Senhor nosso é Anjo muito mais propriamente que todos os Anjos, pois ele foi o Legado ou Núncio enviado pelo Eterno Padre para tratar o maior negócio que houve, nem há de haver jamais, que é o da salvação, não de qualquer alma em particular, mas de todo o mundo. Assim é, e por isso se chama este Senhor nas Escrituras Anjo do Novo Testamento, e Anjo da grande consulta, porque a maior consulta que houve desde toda a eternidade foi a das três Divinas Pessoas, em que se decretou tomar satisfação dos agravos de Deus à custa de novos agravos do mesmo Deus, e chamar os filhos de Adão à herança do reino eterno por testamento do Sangue e morte do Verbo humanado, e desta consulta grande e testamento novo o Núncio, ou Anjo, foi Cristo; mas porque este Senhor, sendo homem, juntamente é Deus e palavra do mesmo Deus, e sendo Núncio, juntamente é Sumo Pontífice, por isso disse Ruperto, que Cristo fora Anjo ou Núncio de si mesmo: Suimet factus est Angelus, et Nuntius[41]. Temos logo que pela medida deste homem Anjo, que é Cristo Senhor Nosso, se mede a grandeza da Jerusalém Celestial, isto é por seus merecimentos, por seus trabalhos, por sua Cruz e morte. Considere agora quem puder o incomparável valor dos merecimentos deste Senhor, e eis aí tem a misteriosa cana de ouro para medir por ela a grandeza dos gostos do Céu, porque todos os gostos do Céu que logram os bem-aventurados são comprados e adquiridos pelo preço destes merecimentos. Merecimentos de um Deus cuspido e esbofeteado! De um Deus despido à vergonha e açoutado publicamente! De um Deus metido de baixo dos pés de algozes e deixado em poder dos mesmos demónios: Haec est hora vestra, et potestas tenebrarum! Oh!, que grande é esta cana de ouro! Senhor, se vossa Majestade não tem guardado o Céu, para os que participam de seus merecimentos, cousas maiores que toda a imaginação, gostos infinitos, glória a enchentes, consolação a dilúvios, seguramente digo que a medida é maior: a cana de ouro excede, e não é isso o que nos prometestes; mas não te assustes, alma minha: aquela glória é inefável, estupenda, sempiterna, e mui conforme à medida de um Deus homem, e homem Anjo: Mensura hominis, qui est Angelus.

 

 

§ VII

 

Individuemos mais este discurso, e atendendo um pouco às penas de Cristo Crucificado, veremos como por entre elas se estão divisando as propriedades da Glória eterna que esperamos. Primeiramente escolheu o Senhor par padecer morte de Cruz o monte Calvário, um lugar infame, horrível e fétido com as ossadas dos padecentes; nisso se mostra (diz S. Dionísio Cartusiano) que o lugar que nos tem preparado para o gozarmos é o Céu dos Céus, habitação de honra e contentamento de luz e fermosura: Locum inbonestum, atque turpissimum elegit, in quo ipse mori voluit, ut nos ad Empyrei Caeli splendidissimam mansionem feliciter transferremur.

 

Consentiu o amantíssimo JESUS que o despojamento de todas suas vestiduras estando aparelhado para ficar até sem os panos interiores, que chamam de honestidade, se o sacrílego atrevimento de seus inimigos intentasse essa loucura. Oh!, raro exemplo de amor, de pobreza, de humildade! Desde modo (diz Lucas Burgense) nos teceu a estola preciosíssima da inocência e imortalidade que havemos de vestir na casa de Deus[42]: Nudari, et vestibus expoliari se permisit, ut vestem nobis innocentiae, et immortalitatis recuperaret.

 

Estendeu o Senhor os braços nos da Cruz e aos rigores da inumana violência, com que os algozes, puxando por eles, puderam chegar ao lugar dos furos. Isto que significa senão que o Senhor salva a quantos pode salvar, e sega para colher nos celeiros de seu Eterno Pai quantoas espigas poe abarcar, porque desta felicidade a nenhum povo, a nenhuma nação, a nenhum pecador exclui quanto é da sua parte: Expandit in Cruce manus (diz S. Cirilo Hierosolomitano) ut comprehenderet fines terrae[43].

 

Foi o Senhor atormentado com o amargor intolerável do fel e vinagre. A vista disso, que podemos esperar na bem-aventurança senão uma torrente de deleites que console, refigere, e embriague nossos espíritos; como disse o Salmista: Inebriabuntur ab ubertate domus tuae, et torrente voluptatis tuae potabis eos[44].

 

O título da Cruz, apesar dos inimigos do Senhor, que procuraram se apagasse, ficou imóvel. Sabeis (diz Ludolfo Cartusiano) que mistério aqui se oculta? O reino de Cristo, que esperamos, é permanente; não conhece mudança: Immobilitas tituli, immobile regnum significat Christi.

 

E da Coroa de espinhos, que diremos? Ouvi primeiro um maravilhoso caso, que escreve Lupoldo, Bispo de Bamberga[45], sucedido em tempos do Cristianíssimo Carlos Magno. Achando-se este Imperador em Constantinopla, e já de volta para as suas terras, pediu com instante devoção alguma parte da Coroa de espinhos do Senhor. Foi decente, além de preciso deferir aos desejos pios de tão alto Monarca, e tão benemérito de toda a Igreja. Em presença sua e de inumerável povo abriu o Patricarca Daniel a caixa onde aquele soberano depósito, mais ilustre e mais precioso que os orbes  estrelados, se entesourava, e rompeu logo de dentro tão poderoso dilúvio de suavíssima fragrância, que inundando toda a cidade convocou muito mais gente a buscar e inquirir a causa de que tão extraordinário efeito procedia, como se todos disseram: Post te curremus in odorem, empós de vós Senhor corremos atraidos de vossa fragrância, e era esta tão confortativa e celestial, que em virtude sua cobraram repentina e perfeita saude trezentos e um enfermos de várias doenças e lesões de membros; e o que mais é, em presença de mesma relíquia ressuscitou depois um morto. Viu-se também publicamente que os espinhos (em que terra de benção foram eles plantados!) não só reverdeceram, senão que brotaram muitas e engraçadas flores, as quais vieram a converter-se em maná semelhante ao que chovia no deserto, quando o povo de Israel peregrinava. Não pararam aqui os prod[igios, mas esta parte me basta para o meu intento.

 

Digo eu agora. Por esta Coroa de espinhos de nosso Salvador se mostra claramente qual é a Coroa da Glória, que esperamos. Porque primeiramente chama-lhe o mesmo Cristo Coroa de vida: Dabo tibi Coronam vitae[46]. E que chamaremos àqueles espinhos ressuscitando os mortos, senão Coroa de vida? Mais: a Coroa que se promete é de glória sempre nova e florescente: Immarcescibilem gloriae coronam[47], e isso se mostrou naqueles espinhos florecendo e conservando seu verdor depois de tantos séculos. Mais: a glória que esperamos é saude, como lhe chamou Isaias: Sanitas tua citius orientur[48], e isso se mostrou em darem aqueles espinhos saude a tantos enfermos. Mais: a glória que esperamos a todos pela notícia da fé convida, e pelo conforto da esperança alenta a que a procuremos, e isso se mostrou em convocarem aqueles espinhos com sua fragrância toda uma Cidade. Finalmente a Corora de glória que esperamos compreende todos os gostos e contentamemos naquele grão, que deles é capaz cada bem-aventurado, e por isso se chama Maná escondido: Vincenti dabo Manna absconditum[49], porque o maná tinha todos os sabores, segundo a disposição dos que o comiam, e isso se mostrou em produzirem aqueles espinhos maná, como o que choveu Deus para o seu povo; logo, bem dizia eu, que a Coroa de espinhos do Senhor mostra claramente qual será a Coroa da glória, que esperamos, porque enfim os gostos desta foram granjeados e merecidos pelos tormentos daquela; logo, a Cruz de Cristo, o título, o Calvário, a desnudez, o fel, a Coroa de Espinhos e todas suas penas não são outra cousa que uma significação expressa de nossas glórias.

 

 

§ VIII

 

Falta ainda por dizer alguma cousa das chagas do Senhor, e seria criminoso o silêncio, quando estas são a principal escultura da Pedra, e em que a dita significação se descobre mais expressa. As chagas do nosso JESUS são flores; assim lhe chamou ele mesmo nos Cantares, dizendo que estas flores abrirão ou aparecerão na terra virgem de seu corpo: Flores apparuerunt in terra nostra[50]. De verdade flores (acrescenta S. Bernardo) encarnadas e flamantes: encarnadas, porque as coloriu o Sangue da Paixão; flamantes, porque as acendeu o fogo da Caridade: Vere flores rubentes, et ardentes: rubentes sanguine Passionis, et ardentes igne charitatis[51]. Pois se são flores as chagas de JESUS, que muito que a seu tempo vieram a se formar em frutos, e que sejam fermosos estes frutos, conforme foram, e são fermosas aquelas flores? Assim é, oh! Católicos. Nenhum gosto ou consolação ou alegria logram os Bem-aventurados que não seja procedida destas chagas, que não seja fruto destas flores. Donde veio a chamar-lhe um contemplativo forma ou molde original dos gostos Celestiais: Mensurae Archetipae gaudiorum[52]. Até o lume da glória essencial, dizem alguns Teólogos, que é causado fisicamente por virtude ou influxo destas chagas; e outros têm para si que delas, como de um Sol animado, se deriva toda a claridade que banha a Cidade de Deus e alegra os olhos e corações dos moradores Celestiais, porque, como viu S. João, o luzeiro ou Sol daquele mundo superior é o Cordeiro de Deus: Civitas non egat Sole... lucerna ejus est Agnus[53], que muito logo que pela fermosura destas flores se possa conjeturar a fermosura dos frutos que esperamos.

 

Quando algum curioso deseja ver o que há dentro de uma sala eral, ou de um jardim fechado, aplica os olhos às gretinhas da porta e contenta-se com esse pouco que alcança, enquanto lhe não franqueam a entrada. Quereis almas ver alguma cousa desta claridade do Céu, desta sala ou jardim do Empíreo: Cristo é porta, Ego sum ostium, e as gretas desta posta são as suas chagas, pelas quais assim como olhando para baixo vistes o horror do inferno, assim olhando para cima vereis a claridade do Empíreo.

 

Ostende mihi gloriam tuam[54], mostra-me, Senhor, a vossa glória, disse uma vez Moisés a Deus com confiança que a sua graça lhe dava; mas que respondeu o Senhor? Ver a glória essencial na minha mesma face, Moisés, não pode ser nesta vida: Non videbit me homo, et vivet. Porém do modo que nesta vida pode ser, eu darei traça para ta mostrar. Dentro em mi mesmo há certo lugar oculto: por-te-ás ali sobre uma pedra, aplicando a vista por um buraco dela, o qual eu taparei com a mão enquanto passo, e depois de passar me verás pelas costas: Ecce, iniquit, est locus apud me, et stavis supra petram, cumque transibit gloria mea ponam te in foramine petrae, et protegam dextra mea donec transeam; tollamque manum meam, et videbis posteriora mea.

 

Todo este passo está cheio de Mistérios altíssimos; vamos ao nosso intento. Muitas almas amigas de Deus desejaram ver a sua glória e conhecer a sua grandeza. Olham para o Céu; por todas as partes o veem fechado. Oh!, qual será o bem que lá dentro se esconde! Mostrai-nos Senhor a vossa glória: Ostende mihi gloriam tuam. Não pode ser nesta vida (responde Deus ao coração), perseverai, que eu sou fiel e o desejo mais que vós. Mas se vos contentais com saber o que agora pode saber-se, isso vos concederei. Cristo meu Unigénito filho, como filho é um lugar oculto que etnho dentro em meu seio; neste lugar há uma pedra misteriosa, que é seu corpo Santíssimo; nesta pedra há uns buracos, que são duas chagas: eu vos porei neste lugar, nesta pedra, e nestes buracos, e pedereis ver-me pelas costas, i. é, e vos darei a graça para contemplardes nas chagas de Cristo: Ponam te inforamine Patrae: id est (explica Lira) retinebo in contemplatione Christe passi, e contemplando vós nas chagas de Cristo mais ou menos, conforme eu chegar ou afastar a mão, sem dúvida alcançareis a ver alguma cousa da glória, porque se há lugar onde desde a terra se possa descobrir o que há dentro do Céu, é olhando pelas fendas desta porta, pelos buracos desta pedra, pelas chagas de vosso Salvador.

 

Oh!, Almas chamadas para a possessão feliz do eterno reino da glória, enquanto dele se vos não franquearem as portas, solicitai a graça da contemplação de JESUS Crucificado, que pelas aberturas desta misteriosa pedra alcançareis a ver alguma parte do infinito bem que dentro vos espera. Vinde e contemplai este prodigioso sinal do Céu: Signum in excelsum supra, para dilatares o coração com os alentos da esperança. Já agora alegrai-vos com os trabalhos de vosso Deus, consolai-vos com as suas tristezas, recreai-vos com as suas chagas, triunfai com a sua Cruz; vede por entre essas penas e tormentos quais serão as vossas glórias, se do seu inestimável valor souberes aproveitar-vos. Não pode mentir este sinal do céu, não é falida esta medida do homem Anjo, não podem ser estéreis etas flores de suas chagas, não nos engana a vista e escultura desta pedra aberta pela própria mão de Deus: Ecce ego caelabo sculpturam ejus.

 

 

§ IX

 

Estes são, ó Católicos, os primeiros três aspetos da Pedra de Zacarias, símbolo do Crucificado, a saber, a graveza do pecado, a terribilidade do inferno, e a excelência da Glória; e se me não engano, todos três resumiu o Profeta Ezequiel em três palavras, quando disse que vira um livro ou pergaminho, o qual aberto ou desenvolvido em sua presença, estava escrito de uma e outra página com três géneros de texto, a saber, Lamentações, Cánticos e Ameaças: Vidi: et ece manus missa adme, in qua erat involutus liber: et expandit illum coram me, qui erat scriptus intus, et foris, et scriptae erant in eo lamentationes, et carmen, et vae[55]; que a Humanidade de Cristo Senhor nosso é livro, não há cousa mais vulgar entre os Santos Padres; que este livro se abriu na estante da Cruz para poder ser lido publicamente disse-o também o Profeta Habacuc: Explana eum super tabulas, ut percurrat qui legerit eum[56]; as duas páginas do livro escritas valem o mesmo que dizer: alma e corpo do Senhor ambos atormentados, e como estes tormentos juntamente bos significam o nosso pecado para o chorar, o inferno para o temermos, e o Céu para o esperarmos, por isso as letras do livro eram juntamente Lamentações, Ameaças e Cánticos: olhem os pecadores para as letras deste livro, para os tormentos deste Senhor, e vendo que seus pecados foram a causa, faça a dor suas lamentações: Lamentationes; olhem os de coração duro e obstinado, e vendo quanto parece a suma inocência, temam o castigo eterno: Vae; olhem os arrependidos e justificados, evendo como pelos merecimentos da morte de Cristo se lhes abriu o reino do Céu, cantem versos de alegria: Carmen.

 

Prostrados pois por terra todos aos pés de Cristo Crucificado, reconhecendo nas letras deste livro, e na escultura desta Pedra, por uma parte a enormidade e multidão de nossos pecados, por outra a terribilidade das eternas penas, de que já éramos devedores, por outra a grandeza da glória que o Senhor a tanto custo seu nos adquiriu e tem guardada, façamos com todas as forças de nosso espírito, ajudado com as da graça do mesmo Senhor, três fervorosos atos, um de contrição, outro de agradecimento, outro de esperança.

 

Senhor JESU Cristo, verdadeiro Deus e verdeiro Homem, Criador e Salvador nosso, todo nosso bem, todo nosso amor, nossa vida, nossa esperança, e nossa glória, por serdes vós quem sois infinitamente amável e digno de ser servido e respeitado, nos pesa de vos havermos ofendido, pesa-nos deveras, pesa-nos, Senhor, de todo o coração; fizemos mal, assim o confessamos diante de toda as criaturas, mas propomos firmissimamente nunca mais vos ofender, emendar as vidas, guardar vossa lei, obedecer a vossa santíssima vontade, ajudando-nos vós, com esperamos com os poderosos auxílios de vossa graça.

 

Infinitas graças e louvores vos sejam dados pelo amor e boa vontade com que vos sujeitais a tanas angústias, trabalhos e tormentos por nos livrar do inferno, que justíssimamente merecíamos. Que fora de nós pobres e miseráveis pecadores, se não houvera em vós chagas e sangue, com que aplacar a indignação de vosso Eterno Pai, e satisfazer sua justiça? Que fora das ovelhas em poder do lobos infernais, se o pastos se não fizera Cordeiro morto desde a origem do mundo para remediar os pecados de todo o mundo? Já agora ardéramos no meio das eternas chamas; já agora fóramos possessão da morte, que nunca morre; já blasfemáramos de vosso santo Nome, e entre nós e os demónios nenhuma diferença houvera; mas as entranhas de vossa comiseração e piedade foram tais, que à custa de vossas penas nos desatastes das nossas, e na vossa condenação e morte, constituistes a nossa vida e liberdade, pelo que vos seja dada honra, glória, louvor, exaltação, magnificência, benção, império por séculos eternos.

 

E não só com as ondas de vosso sangue e bastão de vossa Cruz arrombastes as portas do inferno, senão que nos abristes as do Céu, admitindo-nos a participar convosco como amigos, como irmãos, e como filhos os excelentíssimos frutos de vossos merecimentos. Oh!, quem vira já face a face claramente a glória que divisa por entre estas amorosas chagas! Oh!, quem colhera as rosas e provara o maná que produziram os vossos espinhos! Oh!, qyem se vira morador dos palácios que se medem pela cana de ouro de um Anjo homem, e de um homem Deus! Oh!, quando, quando verei cumpridas as magníficas promessas que não têm menos penhor que a Cruz e morte de um Deus! Muito tardam, mas eu as espero, espero Senhor em vossa bondade e merecimentos, que vos hei de ver gozar e louvar por toda a eternidade.

 

 

Fonte: BERNARDES, Padre Manuel. Obras Completas do Padre Manuel Bernardes, Vol XIII, T. II, Sermões e Práticas

(Reprodução fac-similada da edição de 1733), Ed. Anchieta S.A., São Paulo, 1947, págs. 135-165.

 


[1] Ps. 117, 22; Matth 21, 42.

[2] Apud Cartagena, tom. I, lib. 10, Hom. 8ª.

[3] 2Cor. 5, ult.

[4] Isai. 53, 6.

[5] Alapid. Ibi.

[6] In fragmento sup. illud: [?] quidam descendebat in Jerusalem.

[7] In Biblier. PP. tom. 5.

[8] Apocal., 12, 8.

[9] Hebr., 9, 26.

[10] He., 1, 15.

[11] V. P. Fr. Ant. das Chagas, Epist. 58.

[12] Eccl., 33, 15.

[13] Ezech., 43, 10-11.

[14] Virg., Aneid, 2.

[15] S. Ambros., Serm. 40.

[16] Raban., lib. I de Laude Crucis. declar. in fine.

[17] Luc.,  Burgensis in Matth.

[18] Ps., 87, 3.

[19] Apud Lorinum hic.

[20] Thren., 8, 6.

[21] In Ps., 77, 5.

[22] Apud Alapid. in c.8, Cant, V.6.

[23] In c.8 Cant, v.6.

[24] Hist. Eccl., lib. 9, c.6.

[25] In discript. Hierusalem r. 252.

[26] Luc., 23, 31.

[27] Joel, 11 19.

[28] Remigius Altisiodorensis in expositione, ibi.

[29] Jerem., 4, 11.

[30] Divus. Hier, ibi.

[31] In Ps., 93, 20.

[32] In 3 dist. 16, art. 1, q. 2.

[33] Lib. 2, Quaetionum evangel. quaest. 38, 10 - 4.

[34] Ser. 66.

[35] Ps., 74, 9.

[36] Richard Vict. I. I de Emmanuele c.9, S. Irinaeus I. 3 c. 21, S.

[37] Epiphan. in Ancorato; Helychius Orat. I. de Dei para Origen. Hom. 2 in Isai.

[38] Apoc., 21, 17.

[39] S. Greg., lib. 24; Mor., c. 2 Clem.

[40] Alex. Paedagog. c. 7; Rupert., lib. 5 in Apoc.; Orig., lib. 5 contra Celsum; Dionis., c. 4  caelest. Hierarch.

[41] Rupert., lib. I de Meditat. mortis 6, 11.

[42] Luc. Burg. sup. Matth.

[43] Catechesi. 13.

[44] Ps., 35, 9.

[45] Lupold. lib. de  veterum Principum Germanorum Zelo, c. 14.

[46] Apoc., 2, 10.

[47] 1 Petr., 5, 4.

[48] Isai., 58, 8.

[49] Apoc., 2, 17; Sap., 16, 21.

[50] Cant., 2, 12.

[51] D. Bern., Ser. 13- in Cant.

[52] F. Lyrus. lib. 5. De imit. Jesu patientis, c. 7.

[53] Apoc., 8, 23.

[54] Exod., 33, 18.

[55] Ezech., 2, ult.

[56] Habac., [?], 2.