Sobre a disciplina cristã (Parte 2)

Santo Agostinho

 

Capítulo Oitavo: Diminuir, pela esmola, o fardo das riquezas.

 

8. Talvez me respondais: Eu sou rico, e ele pobre. Ides marchar juntos, sim ou não? Dizer eu sou rico, e ele pobre, não é afirmar que eu estou carregado, e ele sem fardo algum? Eu sou rico, e ele pobre. Lembrai-vos de vosso fardo, e transmiti o peso que vos esmaga. O que mais me impressiona é o estar vós encadeado a vosso fardo, não podendo por isso estender a mão. Estais sobrecarregados, ligados, de que pois vos orgulhais? Por que vos derramais em elogios? Parti as correntes, aliviai o fardo. Passando-o ao companheiro de viagem, vós o ajudais e vos aliviais. Enquanto derramais elogios pomposos a vosso fardo, Jesus Cristo pede-vos a esmola, e nada recebe, e para melhor disfarçar a crueza da recusa, invocais a ternura paternal e dizeis: Não o devo entesourar para meus filhos? Apresento-vos Jesus Cristo, opondes-me vossos filhos. A vossos olhos, é justo que possais contemplar vossos filhos em abundância luxuriante, e vosso Senhor na miséria? “O que fazeis ao menor de meus irmãos, é a mim que o fazeis.” Nunca pesastes nem lestes essas palavras? Eis aqui o homem derrotado, e vós me enumerais vossos filhos? Que seja, enumerai-mos, mas a esse número acrescentai mais um, vosso Senhor. Se tendes um, acrescente o segundo; se tendes dois, o terceiro; se tendes três, o quarto. Sei que nada disso vos apraz. É desse modo que amais vosso próximo, até torná-lo partícipe de vossa perdição.

 

9. Como vos dizer ainda de que modo amais o próximo? Homem avarento, que palavra comove vossa orelha? Vós não afirmaríeis a vosso filho, irmão ou pai, que aqui a felicidade é ser rico? Mais ricos sejais, maiores serão aos olhos dos homens. Fazei de um tudo e amontoai tesouros. Eis o que murmurais à orelha do próximo; não fora isso, todavia, o escutado, nem o aprendido na morada da disciplina.

 

 

Capítulo Nono: Evitar os perniciosos discursos dos avarentos.

 

Não é esse o amor que vos peço ao próximo. Oh!, quem me dera conseguir apartar-vos de tais pessoas! Pois “as más conversações corrompem os bons costumes”. Mas não posso esperar que nunca vos aproximeis de um estranho, para murmurar à sua orelha a linguagem vergonhosa que teimais em não desaprender; não somente não o quereis, mas vos alegrais de comunicar a outrem. Condeno-o vigorosamente, e desejo, contudo em vão, interpor entre vós e vossos irmãos uma barreira intransponível. Ah, dirijo-me diretamente aos outros, aqueles cujas orelhas desejais entreter e macular, para ali injetar o veneno até que escorra ao coração. Ó vós, que recebeis a palavra de vida na morada da disciplina, “erigi uma barreira de espinhos em torno de vossas orelhas”. “As más conversações corrompem os bons costumes; erigi uma barreira de espinhos em torno de vossas orelhas”. Cercai-a, cercai-a de espinhos, para quem tentar penetrá-la, não só seja afastado, mas ferido. Arredai-o para longe de vós. Dizei-lhe: vós sois cristão, eu sou cristão; não foi isso que aprendemos na morada da disciplina, nessa escola onde entramos gratuitamente, nessa disciplina cujo Mestre tem cátedra no céu. Não me faleis assim, ou afastai-vos. Com efeito, este é o sentido destas palavras: “Cercai vossas orelhas com uma barreira de espinhos”.

 

10. Agora, dirijo-me a vós. Vós sois avarentos, amais o dinheiro: desejais ser felizes? Amai o Senhor vosso Deus. A riqueza não vos torna felizes; vós a honrais com todas as veras, mas ela vos não torna felizes. Como amásseis muito a riqueza, vejo que ides onde vos arrasta o ardor dos desejos. Preguiçoso, ide onde vos chama a caridade; vede e observai bem se nosso Deus não é infinitamente superior à riqueza. O sol que nos alumia é mais formoso que a riqueza, e entretanto não é Deus. Se essa luz é mais formosa que a riqueza, quanto mais não será aquele que criou essa luz? Desejais pois medir o dinheiro com essa luz? Que desaparecesse o sol durante a noite, mostrai-me então vosso dinheiro. Ele rebrilha, mas somente quando se pontua a noite com uma fogueira; eis que sois ricos, mostrai-me vossas riquezas; se não tendes luz, se vossos olhos estão mergulhados em obscuridade, mostrai-me onde estão vossas riquezas.

 

 

Capítulo Dez: A cegueira dos avarentos.

 

Não logram os olhos sondar a horrível profundidade da avareza, mas é certo que o espírito o pode. Vimos avarentos cegos; dizei-me o que os torna cegos. Tenha ou não posses, o avarento é um cego. Por quê? Porque, desde que ele crê possuir, é cego. A crença é o que o torna rico; logo, é rico porque assim o crê, e não porque o vê. Quanto mais rica não é, certamente, a elevação da fé em direção a Deus! Não vedes o que possuis, e é o mesmo Deus quem vo-lo diz. Não o vedes ainda, mas amai-o e então o vereis. Cegos que sois, amais o dinheiro que não verás. Possuis como cegos, e morrereis como cegos, abandonando cá embaixo o que possuíeis. Até durante a vida, não possuíeis, pois não víeis o que tínheis.

 

11. E Deus, que vos disse? Escutai a palavra da sabedoria: amai a Deus “como ao dinheiro”. É infâmia e ultraje comparar a sabedoria ao dinheiro: contudo, aqui nos contentamos de comparar amor e amor. Com efeito, vejo-vos tomados do amor à riqueza, pelas quais, sob as ordens dele, empreendeis os trabalhos mais penosos, suportais o jejum, singrais os mares, confiais-vos aos ventos e às vagas. Sei o que poderíeis amar, mas não sei o que poderia eu acrescentar ao amor que já possuís. Amai-me assim, não há modo mais subido de me amar, diz o Senhor.

 

Dirijo-me aos homens injustos e avarentos; amais o dinheiro, dai-me a mim então esse amor. Sem dúvida, sou infinitamente superior à riqueza, mas vos peço apenas o mesmo amor; amai-me tanto quanto amais o dinheiro. Ao menos enrubesçamos de vergonha, confessemos nosso crime, batamos sobre o peito, em lugar de revestir nossas veredas com pedra ou mármore. Quem bate sobre o peito e não se corrige, consolida seus pecados, não os destrói. Batamos sobre o peito, firamo-nos, corrijamo-nos, se não quisermos que o mestre por sua vez não nos fira a nós. Até aqui, dissemos o que devemos aprender; digamos agora porque devemos aprender.

 

 

Capítulo Onze: Aprender as letras para um fim temporal.

 

12. Por que ides à escola? Porque vos bateram, e foram conduzidos por vossos parentes, caçados em vossa fuga, arrastados à força e disciplinados com instrumentos de penitência? Por que vos bateram? Qual a causa das violências que padecestes durante a juventude? Tudo foi para vos obrigar a aprender. Que aprendestes vós? As letras. Por quê? Para adquirir riquezas, ou honrarias, e subir às mais altas dignidades. Vede como um simples algo que deve perecer, deve conduzir-vos igualmente à perdição: quantos sofrimentos padecestes para aprender lições perecíveis, e todavia éreis realmente amados por aqueles que vos submetiam às rudes provações. Mas os que vos batiam, batiam-vos para vos forçar a aprender o quê? As letras. São boas as letras? Sem dúvida alguma. Sei bem o que me direis: vós, bispos, lestes nas letras; tratastes das Santas Escrituras com o auxílio da literatura. Com certeza, mas não é precisamente para tal fim que aprendemos as letras. Nossos pais, ao nos enviar para a escola, não nos diziam: aprende as letras para que possas ler a lei do Senhor. Inclusive os cristãos não sustentam esta linguagem para com seus filhos. Que lhes dizem eles? Aprende as letras. Por quê? Para que sejas homem. E por quê? Sou por acaso animal? Não, mas te digo para aprenderes a fim de te tornares homem, i. é, que possas resplandecer entre os homens. Daí este provérbio: na terra, só presta quem tem. Tenhais pois o mesmo que os outros, ou que os privilegiados; ou mais que os outros, ou que os privilegiados, obtereis como prêmio honrarias e dignidades. Mas o que se há de tornar tudo isso quando soar a morte sua hora? Seria a morte estimulante, e o temor poderoso excitante? Como esta palavra que acabei de pronunciar foi privilegiada, atingindo-vos o coração? Como vossos gemidos vêm atestar o temor que vos obseda? Escutei, e muito bem, que gemestes, que temeis a morte. Se a temeis, por que não a evitais? Temeis a morte; por que a temeis? Ela virá; tema ou não tema, ela virá; cedo ou tarde, ela virá. Apesar de a temer, fingis que não há nada que se temer.

 

 

Capítulo Doze: A boa morte preparada na boa vida.

 

13. Tende muito medo daquilo que depende apenas de vossa vontade. E que vem a ser isso? o pecado. Temei cometer o pecado, pois que se amais o pecado, incorrereis em morte eterna, a qual não temereis se não amais o pecado. Mas estais tão pervertidos que preferis antes a morte à vida. Exclamais: “Deus me livre disso”. Qual homem ama mais a morte que a vida? Talvez eu vos convença que amais mais a morte que a vida. Apresento-vos o meio de convencimento. Amais vossa túnica e, em conseqüência, a quereis boa; amais vossa estância, e a quereis boa; amais vosso filho, e o quereis bom; amais vosso amigo, e o quereis bom; amais vossa casa, e a quereis boa. Que quereis exatamente quando desejais que vossa morte seja boa? Como é mister morrer, rogai a Deus a cada dia para dar-vos uma boa morte, dizendo “que me preserve Deus de uma morte ruim”. Amai pois mais a vossa morte que vossa vida. Temeis o mal morrer, mas não o mal viver. Abstendes-vos do mal viver, e temeis o mal morrer. Ou antes, não a temeis, pois não se pode morrer mal, quando se viveu bem.

 

Ouso dizer e repeti-lo, pois “tendo acreditado, falei”: não se pode mal morrer, quando se bem viveu. Eis o que vos repetis a vós mesmos: muitos justos não morreram em naufrágios? Não se pode morrer mal, quando se viveu bem? Não tombaram muitos justos sob a espada dos inimigos? Não se pode morrer mal, quando se viveu bem? Muitos justos não tombaram sob os golpes de assassinos, ou devorados por bestas feras? Não se pode morrer mal, quando se viveu bem? Respondo: morrer no naufrágio, traspassado pela lâmina ou devorado pelas bestas feras vos parece má morte? Não fora esse gênero de morte a dos mártires, cujo nascimento no céu celebramos? Que gêneros de morte não tiveram os condenados? E todavia se somos cristãos, se não nos esquecemos o que somos nesta morada da disciplina, se ao sair daqui não esquecemos o que aqui vimos, se nos lembramos das verdades que aqui escutamos, não é porque celebramos a morte dos mártires? Buscai saber como morreram os mártires, interrogai os olhos da carne, e concluireis que tiveram má morte. Interrogai os olhos da fé, e concluireis que “A morte dos santos é preciosa aos olhos de Deus”. Se imitais os santos, não haveis que temer diante da morte. Trabalhai para levar boa vida; e qualquer seja a circunstância da vossa saída do corpo, saí em repouso, numa felicidade sem mescla de temor e infinita. Poderíamos acreditar boa a morte do mal rico, expirando engolfado entre a purpura e o linho; mas qual terrível não será a morte do desgraçado devorado de sede, implorando aos berros por uma gota d’água, em meio a tormentos! Alguém acredita má a morte do pobre Lázaro, expirando às portas do rico, lambido pelos cães, apetecendo, para aliviar a sede e a fome, as migalhas que caíam da mesa do rico morto em desgraça, em morte desgraçada. Vede como ele terminou; sois cristãos, abri os olhos da fé: “Morreu o pobre, e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão”. Para o rico devorado de fome e sede nos infernos, de que valia o túmulo de mármore? E as chagas e úlceras, como podiam tolher o pobre enquanto repousava no seio de Abrãao? Divisou o rico ao longe o pobre em repouso, o mesmo que jazia a porta do palácio. Escolhei entre esses dois mortos; dizei-me: qual dos dois tivera boa morte, e qual má morte? Parece-me a morte do pobre preferível a do rico. Vós vos quereis encerrados no báratro, com uma sede infernal a devorar-vos? Não, me responderíeis. Ao menos, suponho ser essa vossa resposta. Aprendei pois a morrer bem, vivendo bem. A recompensa da boa vida é a eterna recompensa.

 

 

Capítulo Treze: Os bons e os maus ouvintes.

 

14. Quem se instrui, prova que é cristão; quem escuta e não se instrui, que interesse inspira ao semeador? Nem a distância do caminho, nem as pedras, nem os espinhos amedrontam a mão do semeador, que lança o que lhe pertence. Quem teme que a semente caia em terra ruim, se detém antes de alcançar a boa terra. Nós, pelo menos, falamos, lançamos e dispersamos a semente. Entre os ouvintes, há os que a desprezam, e os que se queixam, e os que fazem troça. Se temêssemos todos os ouvintes, não seria possível semear; morreríamos de fome no tempo da colheita. Tomara se achegue a semente à boa terra. Sei que quem me escuta, e escuta seriamente, sente em si algo enfraquecer e algo progredir; enfraquece em iniqüidade, progride na verdade; enfraquece no século, progride em direção a Deus.

 

 

Capítulo Quatorze: Quem é o verdadeiro mestre?

 

15. Com efeito, quem é o mestre que nos ensina? Não é um homem qualquer, mas um apóstolo. E mais, se é um Apóstolo quem fala, não é ele quem ensina. “Quereis provar o poder de Jesus Cristo que fala por minha boca?” Quem ensina é Jesus Cristo, de sua cátedra no céu, como dizia eu não faz um instante. Sua escola está sobre a terra; ela é seu corpo. A cabeça instrui os membros, a língua fala aos pés. Quem ensina é Jesus Cristo: escutemos, temamos, obedeçamos. Guardai-vos de desprezar Jesus Cristo, pois é por vós que veio ele em carne, revestindo-se das lambugens da mortalidade; por vós padeceu fome e sede, por vós assentou-se fatigado nas amuradas dos poços; por vós dormira esgotado dentro do barco; por vós recebeu injúrias atrozes, por vós permitiu lhe escarrassem em rosto; por vós foi vergastado; por vós cosido à cruz, por vós morto, por vós depositado no túmulo. Seria tudo isso o que desprezais em Jesus Cristo? Quereis saber quem ele é? Recordai-vos do Evangelho que escutastes: “Meu Pai e eu somos um só”.

 

16. Unidos ao Senhor, roguemos-lhe por nós e por todo o povo reunido conosco na morada do Todo-Poderoso; imploremos que se digne guardar e proteger esse povo, por Nosso Senhor Jesus Cristo seu Filho, que com ele vive e reina, pelos séculos dos séculos. Amém.