Lux orta est:

Nasce a luz.

 

Sermão de São Tomás de Aquino

 

Prólogo

 

[Os bens verdadeiros: graça e glória eternas]

 

 

Nasce a luz para o justo, e a alegria para os retos de coração (Sl. 97 [96], 11). Toda dádiva excelente, todo dom perfeito vem do alto e descende do Pai das luzes. Estas últimas palavras são extratos do cap. 1 de São Tiago (1 ,17). Os bens temporais são boas dádivas; os bens naturais, sejam alma e corpo, são dádivas melhores; os bens da graça e glória eternas são dádivas excelentes.

 

Toda a dádiva excelente, qual seja, a graça, provém do Pai das luzes. Da graça se diz dádiva excelente por sua ação meritória; donde aquilo de João 15, 5: Sem mim, nada podeis fazer. Igualmente da graça se diz dádiva perfeita por alcançar as benesses da glória. E tais dádivas, quem no-las distribui é o Pai das luzes. Salmo 84 [83], 12: O Senhor dá a graça, no presente, e a glória, no futuro. Porque a graça de Deus é de tamanha eficácia para a boa ação no presente, em vistas à glória eterna no futuro, imploremos antes ao Senhor de nos conceder a graça etc..

 

 

Primeira Parte

 

[Por que chamam de “luz” a Virgem?]

 

 

Nasce a luz para o justo. Breve é a expressão, e de sentidos mui diversos; encontramo-la no Salmo 97 [96], 11. Lemos que o nascimento da Virgem se havia anunciado no Antigo Testamento, em numerosas figuras; dentre as várias figuras, representam-na três de modo singular, a saber, a aurora, a aparição da estrela e o broto da raiz. A aurora significa o nascimento [da Virgem], sob o aspecto da santificação. Na aparição da estrela ela está prefigurada sob o aspecto da integridade da virgindade. No broto da raiz, sob o aspecto de sua elevação e grande contemplação.

 

A propósito da aurora, em que se prefigura o nascimento da Virgem sob o aspecto da santificação, lê-se em Gênese 32, 27, no que o anjo fala a Jacó: Larga-me, porque já vem vindo a aurora. O combate de Jacó significa a assembléia dos patriarcas que outrora lutavam contra o anjo usando dois braços, i. é, lágrimas e orações. Assim em Oséias 12, 4: Prevaleceu sobre o anjo, e ficou vencedor; chorou e suplicou-lhe. Após reconhecer o nascimento da bem-aventurada e gloriosa Virgem na aurora, declarou o anjo: Larga-me, como se dissesse: “Não me supliques mais, antes recorra à bem-aventurada Virgem.” A aurora é o termo da noite precedente e início do dia vindouro. De igual modo, no nascimento da bem-aventurada Virgem Maria, termina a noite da culpa, e começa o dia da graça. Declara Sedúlio: “Ela pôs cobro aos vícios e deu medida aos costumes.”

 

Em segundo lugar, o nascimento da Virgem gloriosa está prefigurado na aparição da estrela, representando a integridade da virgindade. Assim pontifica Balaão em Números 24, 17: Nascerá uma estrela de Jacó; e levantar-se-á uma vara de Israel. Ora, compara-se seu nascimento à integridade da virgindade duma estrela; assim como o astro emite seus raios sem corrupção, nem diminuição ou perda de luz, assim a bem-aventurada Virgem engendrou seu Filho sem desprendimento violento na carne, e sem a perda da virgindade. Afirma São Bernardo: “É de justiça que se compare a bem-aventurada Virgem a um astro, pois assim como o astro emite seu resplendor sem se corromper a si mesmo, e sem diminuir a claridade, assim o Filho [da Virgem] não suprime em nada a virgindade de sua mãe.”

 

Em terceiro lugar, o nascimento da gloriosa Virgem se prefigurou no broto da raiz, representando a contemplação. Isaías 11, 1: Sairá uma vara do tronco de Jessé, e uma flor brotará da sua raiz. O broto retesa-se em direção ao céu, significando a contemplação da bem-aventurada Virgem, que tinha o coração elevado ao alto, acima as coisas terrestres. Daí São Bernardo: Ó Virgem sublime! Em que sois sublime? Vós elevais tua alma àquele que se assenta no trono, ao Senhor da glória.”

 

Deste modo, nesta tríplice figura, anunciaram-nos o nascimento da bem-aventurada Virgem Maria. Houve uma como aurora em seu nascimento; e uma como estrela que nasceu na formação do Filho de Deus; e um como broto que germinava em seu comportamento honesto. Num só versículo resume David a tríplice figura: Nasce a luz para o justo etc.. A luz encerra a noite, e faz romper o dia, emite seu resplendor sem incorrer em corrupção e, abandonando as coisas inferiores, tende em direção ao alto. No Evangelho chamam a assembléia dos apóstolos de “luz”. Assim Mateus 5, 14: Vós sois a luz do mundo. São os anjos  também chamados “luz”, Gênese 1, 3: E Deus disse: “Que a luz seja”. E a luz foi. A Glosa afirma que tal se declara dos espíritos bem-aventurados ou anjos. Como a Virgem ultrapassasse a assembléia dos apóstolos e dos anjos, em razão de sua excelência, ela é denominada convenientemente “luz”.

 

Por outra razão, pode ela também ser denominada “luz”. Vemos Deus dizer em João 8, 12: Eu sou a luz do mundo, e a bem-aventurada Virgem germinar essa luz. Ora, é impossível se engendrar a luz, em geração unívoca, por algo que não seja luz. Eis porque convém à Virgem o apelido de “luz”.

 

Vestem-lhe bem estas palavras: Nasceu a luz para o justo etc.. É necessário sublinhar dois fatos em particular: em primeiro lugar, o nascimento da gloriosa Virgem, quando se lê: Nasceu a luz; em segundo lugar, o fruto do nascimento, neste passo: Nasce a luz para os justos, e a alegria para os retos de coração! Nasceu a luz para o justo, i. é, para seu pai, Joaquim, porque era sua filha, e para o justo, i. é, o Cristo; nasceu a luz, i. é, a bem-aventurada Virgem havia de se tornar um tipo singularíssimo de mãe. Ainda: Nasceu a luz para o justo, i. é, ela será advogada do arrependido. Assim se canta: “Ó Virgem, advogada nossa!”. Ainda: Nasceu a luz para o justo, i. é, para os praticantes da justiça, os [homens] ativos; e a alegria para os retos de coração, i. é, para os [homens] contemplativos. Denomina-se “ativos” os praticantes da justiça, e “contemplativos” os espirituais, que necessitam de luz que os oriente ao bom comportamento e à contemplação de Deus.

 

Revela-se assim porque a bem-aventurada Virgem é denominada “luz” e por quais figuras fora anunciada.

 

Tratará o sermão deste trecho: Nasceu a luz para o justo; a conferência [da noite] tratará do resto.

 

Até agora se tratou das razões por que a bem-aventurada Virgem foi chamada “luz”; acrescente-se pois algumas mais. Observamos que a luz corporal é fonte de alegrias, que guia os viajantes e os que se mantém na via; dissipa as trevas; difunde as semelhanças; é a mãe das cores e a mas bela das criaturas; dá agrado e consolação aos olhos. Encontram-se tais qualidades na bem-aventurada Virgem, e por isso se diz que é bom contemplá-la.

 

Em primeiro lugar, afirmo que a luz é fonte de alegrias, pois aquele que se acha no mar é mui desejoso da luz, e nela se compraz. Assim ela convém à Virgem, figurada em Ester 8, 16: E aos Judeus parecia-lhes ter-lhes nascido uma nova luz, a alegria, a honra e o júbilo. Assim se declarou aos judeus, i. é, aos que têm fé, e aos cristãos que confessam o Cristo, Deus e homem, que existe uma nova luz, i. é, a bem-aventurada Virgem, chamada de nova luz, pois que parece que não houve alguma antes dela, nem haverá outra depois dela. Denominam-na de “luz” porque lhe são estranhas as trevas do pecado e da ignorância. Parecia ela alçar os olhos da alma, como agora fazia com os do corpo: felicidade para o íntimo, honra para o próximo, triunfo para Deus! Acerca da alegria de seu nascimento, diz-se nos Provérbios de Salomão 13, 9: A luz dos justos, i. é, a bem-aventurada Virgem alegra; porém a candeia dos ímpios apagar-se-á.

 

Em segundo lugar, essa luz é vereda e guia dos viajantes. De igual modo a bem-aventurada Virgem é aquela que indica a direção nesta estrada da vida. Está em João 12, 35: Andai enquanto tendes luz, para que não vos surpreendam as trevas, i. é, as obras das trevas, ou os anjos das trevas, i. é, os demônios, ou ainda as trevas, i. é, o suplício dos infernos. Assim fala Provérbios 4, 18: A vereda dos justos, como luz que resplandece, vai adiante, e cresce até ao dia pleno. A vereda dos justos, i. é, a bem-aventurada Virgem, que é vereda estreita e direita, e é pura da pureza da virgindade – aperta-se pelo rigor de sua fidelidade religiosa, e alonga-se pela direitura de seu caminho. A vereda dos justos é a bem-aventurada Virgem, como luz que luz para si mesma e para outrem, como progresso do bem em direção ao melhor, crescendo até ao dia pleno, até ao gozo da eternidade.

 

Em terceiro lugar, a luz dispersa as trevas. De igual modo o poder da gloriosa Vigem extirpa os vícios. Isaías 9, 2: Este povo, que andava nas trevas, viu uma grande luz, i. é, a bem-aventurada Virgem, que fora grande luzeiro pois que, como o Filho ilumina o mundo inteiro, a Virgem [ilumina] todo o gênero humano. Desta luz declara o Gênese 1, 3: “Que a luz seja!”. E Deus separou a luz das trevas, e a luz foi. “Que a luz seja!”, quando da criação da alma da bem-aventurada Virgem e a luz foi, quando de [sua] santificação. Gênese 1, 4: E Deus separou a luz das trevas, por que, no seguimento, [a Virgem] não pecou. Desta luz se diz em Gênese 32, 27: Larga-me, porque já vem vindo a aurora. À aurora fogem as trevas e aparece a luz. Do mesmo modo a bem-aventurada Virgem espanta as trevas do pecado e desvenda-nos a luz da graça. Chamam-na de “aurora”, que quer dizer “hora do orvalho” [hora rorans], pois que, ao seu nascimento, tornaram-se os céus doces como mel. É denominada “aurora”, que quer dizer “brisa suave”, pois naquele momento silvavam os passarinhos, demonstrando um como gozo de alegria e felicidade. Igualmente viram os Padres no nascimento da Virgem a alegria do céu. Chamam-na também de “aurora”, i. é, “sopro d’ouro” [aurea aura], em razão de sua preciosidade. Assim aquilo de São Bernardo: “Retirai o sol que ilumina o mundo inteiro: onde o dia? Retirai Maria, a estrela do mar grande e extenso, i. é., do mundo: que sobrará senão obscuridade e trevas espessíssimas? Que se conclui daí? Se ela está presente, dissipam-se as trevas; se ela está presente, aurora o dia.”

 

Em quarto lugar, a luz difunde e comunica seu resplendor. A bem-aventurada Virgem difunde e partilha para todos os raios de sua graça. Assim, em Sirácida 24, 19-20: Vinde até mim, vós que me desejais, e abastecei-vos de meus víveres, pois meu hálito é mais doce que o mel etc.. Vinde, i. é, “Passai das vaidades do mundo para mim, que sou cheia de graças”; ou então: “Vinde até mim, abandonai as delícias, que amo a castidade.” De meus víveres,. i. é, das dádivas da graça, abastecei-vos. Não recebereis pouco, senão muito, pois meu hálito é mais doce que o mel, porque a bem-aventurada Virgem é vigilante e misericordiosa com todos. Assim prega Bernardo: “A todos abre a bem-aventurada Virgem os braços da misericórdia, e todos recebem algo de sua plenitude: o doente a cura, o aflito a consolação, o pecador o perdão, o justo a graça; mais ainda, o Filho de Deus recebeu dela a substância da carne, de sorte que não há quem fuja a seu calor.”

 

Em quinto lugar, a luz é a mãe generosa das cores. Deste modo é a bem-aventurada Virgem a mãe das virtudes. Como as cores embelezam o corpo, assim as virtudes embelezam a alma, porque a bem-aventurada Virgem é a mãe das virtudes. Consta em Sirácida 24, 24: Eu sou a mãe do amor formoso [dilectio], i. é, do amor que leva a Deus. “Dileção” quer dizer “ação de ligar duas coisas”. A Virgem liga-nos a Deus: [Eu sou a mãe do amor formoso] e do temor, por que fugimos ao pecado. Diz [Salomão], em Provérbios 14, 16: O sábio teme e desvia-se do mal. Demais, o Sirácida, em 1, 27: O temor do Senhor baniu o pecado. [Eu sou a mãe...] do conhecimento, i. é, da fé santa, e da santa esperança, i. é, da esperança da beatitude futura. Deste modo escreve Bernardo: “Se em nós há traço de virtude, se existe algo de salvação e graça, sabemos que tudo isso transborda daquela que abunda em delícias. Aqui [em Maria] encontra-se o jardim sobre o qual se dispersa a divina viração que vem do sul, e seus perfumes transbordam em dádivas da graça.”

 

Em sexto lugar, a luz é das criaturas a mais esplêndida. Assim a bem-aventurada Virgem. No livro [da Sabedoria] 7, 29 se lê: Ela é mais formosa do que o sol, i. é, que o justo que fulge na Igreja Militante; [ela é mais formosa] do que todas as constelações de estrelas, i. é, que os santos da Igreja Triunfante. Comparada com a luz, i. é, com a criatura angélica, ela vence em dignidade e formosura.

 

Em sétimo e último lugar, a luz é o agrado e a consolação dos olhos. De igual modo a bem-aventurada Virgem é a consolação dos homens. Assim se encontra no [livro da] Sabedoria 7, 10: Eu amei [a Sabedoria] mais do que a saúde, que põe em fuga a doença, e que a formosura de corpo, por que se retira a feiúra, e resolvi-me tê-la por luz de uma boa vida. Os demônios e os perversos detestam a luz, que praz aos bons. Prega Santo Agostinho que “no palato enfermo, o pão é amargo, enquanto é doce no palato saudável; aos olhos doentes, a luz é insuportável, enquanto é amável aos olhos puros”. A luz é amável à inteligência curada pela fé, e desejosa da alma curada pela caridade. Não é de admirar que a bem-aventurada Virgem seja amável, pois se diz dela no livro de Ester 5, 1: Ela era bem feita e de inacreditável formosura, parecendo aos olhos de todos amável e graciosa. De também aquilo dos Provérbios 11, 16: A mulher gentil obterá glória, i. é, a glória eterna, à qual nos conduz Aquele que, com o Pai e o Espírito Santo, vive etc..

 

 

 

Segunda Parte

 

[Maria é a jóia das almas retas]

 

 

Nasceu a luz para o justo, e a alegria para os retos de coração (Sl 97 [96], 11). Dissemos hoje como a bem-aventurada Virgem, em seu nascimento, é luz esplendorosa. Resta falar de como ela é uma jóia para os homens retos, pois se escreve no Salmo: ...alegria para os retos de coração.

 

Na Santa Escritura, não se promete a jóia aos que fazem prova de retidão, senão aos retos de coração, i. é, aos perfeitamente retos. Poremos de manifesto o significado de Jó 1, 1, de quem se diz: Este homem era sincero e reto, e temia a Deus, e fugia do mal, i. é, do pecado. Em Provérbios 14, 16 doutrina Salomão: O sábio teme e desvia-se do mal. Ao homem com tal retidão se promete a alegria.

 

Convém notar que existem dois homens: o homem interior e o homem exterior. De acordo com isso, é preciso que o homem perfeitamente reto possua a retidão do homem interior e [a do homem exterior]. O homem interior tem-na dentro d’alma. Ora, possui a alma duas partes, a saber, o intelecto e a vontade. É pois necessário que exista retidão no homem interior; em primeiro lugar, para aquilo que é ato da inteligência [intellectus], porque a retidão consiste no conhecimento da verdade; em segundo lugar, é necessário que exista também junto ao ato da vontade a retidão [affectus], que é a deleitação no verdadeiro bem, pois o conhecimento da caridade retifica a inteligência, e o amor do verdadeiro bem a vontade.

 

Em primeiro lugar, afirmo que o conhecimento da maior dentre as verdades retifica a inteligência. Assim aquilo do Salmo 72 [71], 1: Quão bom é Deus – i. é, boníssimo – para com os retos, o Senhor para com os puros de coração! Ele é bom, i. é, espalha suas benesses sobre os retos de coração, sobre os possuidores do altíssimo conhecimento da verdade pela fé. A fé é luz particular em vistas ao conhecimento do Senhor e do que lhe respeita. Salmo 125 [124], 4: Senhor, faze bem aos bons – no que respeita à potência afetiva – e aos retos de coração – no que é próprio à inteligência. Está claro agora que, para que o homem seja perfeitamente reto, exige-se a retidão da luz interior, de sua alma, para o que é próprio ao intelecto.

 

Em segundo lugar, exige-se a retidão do homem interior para o que é próprio ao afeto. Acerca deste gênero de retidão, diz Bernardo que “a retidão da criatura racional é o conformar-se com a vontade divina”. Ora, consiste essa conformidade na caridade, que transforma o amador no ser amado, não segundo a substância, mas na conformidade da vontade.

 

Igualmente é preciso que tudo seja reto no homem exterior; por isso, se requerem três condições: em primeiro lugar, que seja reto em sua vista e seu olhar; em segundo lugar, que seja reto em sua língua; em terceiro lugar, que seja reto em seu caminhar.

 

Em primeiro lugar, afirmo que é necessário que o homem exterior seja reto em sua vista e seu olhar. Salomão em Provérbios 4, 25 diz: Os teus olhos olhem direito, e a tua vista preceda os teus passos. Escreve: Os teus olhos olhem direito, não apenas interior, senão que exteriormente, o que é permitido ver; vaticina Gregório: “Não é permitido contemplar o que é interdito desejar.” Também diz: olhem direitos, a saber, os exemplos dos santos e as boas obras dos próximos. E a tua vista etc..: o homem deve abater o olhar em direção aos seres inferiores e humildes. Mas a verdade é que os olhos se alçam, por causa do orgulho e da arrogância do coração; está consignado em Provérbios 6, 16-17: Seis são as coisas que o Senhor abomina, e a sua alma detesta uma sétima: olhos altivos, língua mentirosa. Quando o pavão, que se glorifica da cauda, observa seus pés, imediatamente recolhe a cauda. Do mesmo modo se alguns homens de bem são arrastados pelo orgulho, o que não praz a Deus, contemplem os pés para seu escarmento. Diz-se: teus olhos, no plural, e não no singular; e completa: olhem direito, e não à esquerda.

 

Em segundo lugar, o homem exterior deve ser reto em sua língua, para o que é próprio ao afeto. De fato, escreve o Apóstolo: Esforça-te por te apresentares a Deus [como um homem] digno de aprovação, como um operário que não tem de quê se envergonhar, que distribui retamente a palavra da verdade (2 Tm. 2, 15). Dirige-se aqui sobretudo a um prelado e, em seguida, num timbre diferente, a todos. Diz: Esforça-te, pela dor de contrição; por te apresentares a Deus digno de aprovação, como um operário que não tem de quê se envergonhar, i. é, que não seja suscetível à vergonha, mas ao louvor e a recompensa. Este é aquele que diz palavras úteis. São os perversos os suscetíveis à vergonha. Dispensando com diligência a linguagem da verdade. Há pessoas que não dispersam diligentemente a linguagem da verdade, a saber, aqueles que predicam em nome da glória, ou da excelência dos bons, ou ainda da vaidade própria. Ao contrário dispensam corretamente a linguagem da verdade os que o fazem em vistas à glória de Deus e à edificação do próximo.

 

Ouvi falar dum mestre que ensinara teologia por vinte e cinco anos, vinte dos quais exercera, como confessou quando de sua morte, mais em nome da vanglória que por reconhecimento de Deus e edificação do próximo. Mal uso faremos duma bela espada, feita para cortar, caso a tomemos para atiçar o fogo, pois não será utilizada em consideração à finalidade para que foi concebida. De mesmo modo, a palavra da verdade foi concebida para a glória de Deus e edificação do próximo. Serve-se mal quem dela se serve de outra maneira ou para outra finalidade. Daí aquilo do Sirácida 28, 25: Faze uma balança para pesares tuas palavras, i. é, pesa tuas palavras para saber se são ou não para a glória de Deus, se são ou não mofinas a teu próximo; e um freio bem ajustado para tua boca. Um freio está bem ajustado quando ambos os lados estão igualmente firmes; caso um lado esteja frouxo, enquanto o outro firme, então não está bem ajustado. Por vezes, ocorre a uma pessoa em prosperidade conservar corretamente o freio de sua boca, mas durante a tribulação, blasfemar e murmurar. Deles se fala na epístola de Tiago 1, 26: Se alguém, pois, julga que é religioso, não refrando a sua língua, para guardá-la das palavras más e blásfemas, sua religião é vã.

 

Em terceiro lugar, o homem exterior deve ser reto em sua inteligência. Ensina o Apóstolo, em Hebreus 12, 13: Dirigi os vossos passos pelo caminho direito, para que o que manqueja não se desvie, devido à infidelidade da inteligência, antes, porém, seja sanado, a saber, pela graça de Deus. A afetividade pode fazer alguém manquejar das duas pernas. Assim em 1 Reis 18, 21: Até quando claudicareis vós para os dois lados? Se o Senhor é Deus, segui-o. Manquejam dum pé só os que possuem a fé na inteligência, mas tem aversão ao bem em sua afetividade.  Manquejam de dois pés os que cometem infidelidade na inteligência e detestam o bem em sua afetividade, ou os que exultam no tempo de prosperidade, mas murmuram no tempo da tribulação. Por isso afirma o Apóstolo: (Hebreus 12, 13): Dirigi os vossos passos pelo caminho direito etc.., i. é, onde há a paciente humilde, a verdadeira fé, o amor verdadeiro. Se deparamos com um homem reto tanto interior quanto exteriormente, temos nele promessa de alegria.

 

Mas tu perguntarás por que quem descreveu os retos de coração não fê-lo, do mesmo modo, com os retos de corpo, andar ou olhar? Quando existe a retidão do homem interior, existe a do homem exterior. Mateus 6, 22 diz: Se teu olho for são, i. é, sem marca de duplicidade, todo o teu corpo será luz, o conjunto inteiro de tuas obras será bom e reto. De fato, porque depende o homem exterior do homem interior, limitou-se ele a descrever o homem reto de coração.

 

Está claro quais são os retos de coração. Sabeis o que fazem os que possuem um coração reto? Ao Senhor reembolsam três coisas: primeiro, reformam a vida; segundo, amam ao Senhor; terceiro, bendizem ao Senhor e lhe rendem graças pelas benesses que Deus lhes concedera.

 

Em primeiro lugar, afirmo que eles reformam a vida. Assim em Provérbios, o ímpio, o que não tem piedade diante do Senhor nem compaixão diante do próximo, afrouxa a brida, i. é, não modera seu olhar, i. é, seu coração; o reto corrige suas veredas com previdência.  Este é o reto de coração, reto em justiça perante o próximo, reto em contemplação perante Deus. Por sua vez, o ímpio não modera seu olhar, de tal sorte que não acolhe os mandamentos de Deus e, se os acolhe, não os pratica.

 

Em segundo lugar, os retos de coração apegam-se a Deus por amor. Assim no Cântico 1, 3: os retos amam-te. Salmo 17, 5: Os inocentes e os justos se acercam de mim, a saber, pelo fervor e pelo habitus da caridade.

 

Em terceiro lugar, os retos de coração rendem a Deus graças pelas benesses recebidas, como no último capítulo de Esdras (Neemias 8, 5): Quando Esdras terminou o livro da lei, todos os justos puseram-se de pé. Quando Esdras terminou, i. é, quando Esdras lera e explicara o inteiro teor [da lei] (fala-se de “lei” porque esta nos obriga). Bendisse ao Senhor, o Altíssimo, o Senhor Todo-Poderoso dos Exércitos, e o povo respondeu: “Ámen!”. Em seguida: Reuniram-se todos em Jerusalém para celebrar seu contentamento etc..

 

Tradução: Permanência

(a partir da tradução francesa de Charles Duyck, 2004 – http://vsame.free.fr)